O Brasil acaba de dar um passo estratégico na corrida por componentes de alta tecnologia. Instalada em Aparecida de Goiânia (GO), a primeira planta nacional dedicada ao processamento de terras raras para ímãs permanentes já está em operação piloto, transformando argila iônica bruta em um carbonato com mais de 95 % de pureza. O foco está em quatro elementos — neodímio, praseodímio, disprósio e térbio — cruciais para motores de carros elétricos, turbinas eólicas e também para peças que todo entusiasta de PC conhece bem: ventoinhas de alto desempenho, drivers de fones de ouvido, HDs e até atuadores de placas de vídeo.
Por que esses elementos são vitais para a tecnologia que você usa
Neodímio e companhia pertencem a um grupo de 17 elementos chamados “terras raras”. Quando combinados em ligas magnéticas, eles geram campos magnéticos muito mais intensos que os de ímãs convencionais, suportando temperaturas altas sem perder eficiência. O resultado, na prática, são motores menores e mais potentes — do propulsor de um carro elétrico ao micro motor que gira as ventoinhas do seu PC gamer.
- Headsets premium usam drivers de neodímio para graves mais profundos e agudos cristalinos.
- Placas de vídeo topo de linha contam com rolamentos magnéticos que reduzem ruído e aumentam a vida útil das fans.
- Drones e impressoras 3D se beneficiam de motores brushless que só ganham eficiência total com ímãs de terras raras.
Como funciona a planta-piloto goiana
A matéria-prima chega de Nova Roma (GO), em forma de argila iônica com apenas 0,1 % de concentração. O fluxo industrial segue etapas de lavagem, peneiramento, espessamento e filtração até resultar em um carbonato rico em terras raras. Para cada tonelada de argila, obtém-se cerca de 1 kg de carbonato. Segundo a equipe de engenharia, o método:
- Reaproveita 95 % da água usada no processo;
- Recupera 99 % do principal reagente — um fertilizante natural;
- Dispensa explosivos, trituração pesada e barragens de rejeitos, reduzindo risco ambiental.
Impacto no mercado de eletrônicos e energia limpa
Hoje, mais de 90 % dos ímãs de terras raras vêm da Ásia, principalmente da China. A produção local significa cadeia de suprimentos mais curta para montadoras, fabricantes de aerogeradores e, no médio prazo, para quem monta PCs ou periféricos no Brasil. Menos impostos de importação e frete podem refletir em componentes mais baratos e disponibilidade constante de peças como:
- Coolers de alta rotação para CPUs e GPUs;
- Drivers magnéticos de headsets gamer de marcas como HyperX, Logitech e Razer;
- Motores brushless de scooters e bikes elétricas.
Comparativo com produção global
Mesmo com reservas estimadas em 21 milhões de toneladas (23 % do total mundial), o Brasil produziu apenas 20 toneladas de terras raras em 2024, contra 390 mil toneladas globais. A fábrica goiana não muda o ranking de imediato, mas abre caminho para:
Imagem: Kevin McGovern
- Verticalização da cadeia — do minério ao ímã final;
- Redução da dependência externa em setores estratégicos;
- Incentivo a startups de hardware e centros de P&D que poderão prototipar motores e atuadores com matéria-prima nacional.
Próximos passos: do carbonato ao ímã no seu dispositivo
Após o carbonato, cada elemento ainda precisa ser separado, refinado e convertido em ligas metálicas de alta pureza. Só então viram ímãs permanentes para uso industrial e de consumo. A expectativa da empresa é escalar a planta até produção comercial nos próximos anos, atraindo investimentos para linhas de montagem de motores elétricos, geradores e também de pequenos componentes eletrônicos no Centro-Oeste.
Se o projeto cumprir o cronograma, gamers, entusiastas de áudio hi-fi e usuários de veículos elétricos poderão sentir os benefícios em forma de produtos mais eficientes, compactos e — tomara — com preços mais competitivos.
Com informações de Olhar Digital