Um novo estudo publicado na revista Nature Geoscience acaba de virar de cabeça para baixo a narrativa mais aceita sobre a última Era do Gelo. Pesquisadores liderados pela Universidade de Tulane descobriram que o degelo dos imensos mantos de gelo da América do Norte foi o principal responsável por elevar o nível do mar em mais de 10 metros — superando, e muito, a contribuição da Antártida no mesmo período, entre 9 000 e 8 000 anos atrás.
O que o estudo revela, em números
Até então, as reconstruções climáticas apontavam para a Antártida como protagonista no aumento dos oceanos no final do Pleistoceno. A nova análise, porém, indica que até 70% da água doce liberada veio da América do Norte, enquanto o continente austral teve participação secundária.
Para chegar a essa conclusão, a pesquisadora Lael Vetter coletou sedimentos milenares preservados nas margens do rio Mississippi, nos Estados Unidos, e aplicou datação por carbono-14. Em seguida, a geóloga Udita Mukherjee cruzou esses dados com registros de nível do mar de estações na Europa e no Sudeste Asiático. O resultado: as taxas de elevação oceânica não batiam com um degelo concentrado na Antártida — só faziam sentido quando o grosso da água se originava no Hemisfério Norte.
Por que isso importa para o clima de hoje
O Atlântico Norte funciona como o “ar-condicionado” do planeta graças a correntes como a Corrente do Golfo. Se, no passado, esse sistema foi capaz de suportar um despejo tão massivo de água doce sem colapsar, os cientistas agora se perguntam quão resiliente ele realmente é frente ao derretimento acelerado da Groenlândia causado pelas mudanças climáticas atuais.
De acordo com simulações recentes, o enfraquecimento dessas correntes pode resfriar drasticamente a Europa e alterar o regime de chuvas na Amazônia. “A pesquisa mostra que as correntes eram mais robustas há 10 mil anos, mas isso não significa que aguentem o ritmo de aquecimento antropogênico”, alerta Torbjörn Törnqvist, coautor do trabalho.
Imagem: NASA ICE
Comparação com degelos modernos
Hoje, a camada de gelo da Groenlândia perde cerca de 270 bilhões de toneladas de gelo por ano, o que eleva o nível do mar em aproximadamente 0,7 mm anuais. Para atingir um incremento de 10 m, seria preciso manter esse ritmo por mais de 14 mil anos. No entanto, o estudo mostra que eventos naturais podem acelerar muito esse processo, exigindo atenção redobrada a cenários de aquecimento extremos.
Impactos práticos que você deve acompanhar
- Mercados imobiliários costeiros — Municípios que antes projetavam elevações de 30 a 50 cm até 2100 podem rever seus planos de drenagem e infraestrutura.
- Setor de seguros — Modelos de risco precisam incorporar a possibilidade de derretimentos abruptos no Hemisfério Norte.
- Políticas de corte de carbono — A resiliência histórica das correntes não garante invulnerabilidade no futuro, reforçando a urgência de metas mais ambiciosas.
Em síntese, o estudo não apenas reescreve um capítulo da história climática, mas também serve como sinal de alerta para a velocidade com que as calotas atuais podem transformar a geografia dos litorais globais. A ciência mira o passado para projetar o futuro — e os resultados pedem ação imediata.
Com informações de Olhar Digital