A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou, em caráter excepcional, a importação de 2,6 mil frascos de Fomepizol, medicamento considerado padrão-ouro no tratamento de intoxicação por metanol. O pedido partiu do Ministério da Saúde e será executado via Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS); 2,5 mil unidades foram compradas pelo governo federal e 100 são uma doação do fabricante. A entrega está prevista para até o fim da próxima semana.
Por que esse antídoto é crucial agora?
Em todo o país, o ministério contabiliza 14 casos confirmados e 181 sob investigação, grande parte em São Paulo. O metanol — frequentemente usado de forma criminosa para batizar bebidas — é metabolizado no fígado em ácido fórmico, composto que ataca o sistema nervoso central e pode levar à cegueira ou morte em poucas horas.
Fomepizol age bloqueando a enzima responsável por essa conversão, comprando tempo para que o organismo elimine o tóxico de maneira segura. Nos protocolos internacionais, o antídoto reduz drasticamente o risco de sequelas permanentes quando administrado nas primeiras horas pós-ingestão.
Como o Fomepizol se compara ao etanol farmacêutico?
O SUS já possui estoques de etanol farmacêutico injetável (4,3 mil ampolas) e acaba de adquirir outras 12 mil. Diferentemente do Fomepizol — uma molécula sintética projetada para competir com o metanol — o etanol funciona como substituto “menos tóxico” na mesma rota metabólica. Ele exige monitoramento mais intenso de glicemia e função hepática, enquanto o Fomepizol oferece terapia targeted com menos efeitos adversos, fator que alivia a carga das UTIs em um cenário de aumento de casos.
Mapa dos casos e resposta coordenada
Dos 181 casos suspeitos, 162 estão em São Paulo. Há ocorrências também em Pernambuco, Bahia, Goiás, Mato Grosso, Paraná, Distrito Federal, Rondônia, Minas Gerais, Espírito Santo e Piauí. A Anvisa compõe a “Sala de Situação” do Ministério da Saúde, que reúne:
- Busca de fornecedores internacionais de Fomepizol;
- Publicação de norma emergencial para produção de etanol injetável por 604 farmácias de manipulação;
- Mobilização de três laboratórios públicos (LACEN-DF, Laboratório Municipal de SP e INCQS/Fiocruz) para diagnóstico rápido.
Identificando o perigo antes que seja tarde
Consumidores têm perguntado se é possível detectar metanol em bebidas ainda lacradas. A resposta curta é “sim”, mas exige equipamentos adequados. Testes de bancada desenvolvidos pela USP já mostraram eficácia, e sensores portáteis de detecção de álcool adulterado — semelhantes aos bafômetros de uso pessoal vendidos no varejo online — vêm ganhando atenção. Eles analisam compostos voláteis no ar da garrafa, emitindo alerta em segundos. Para quem produz ou consome destilados artesanais, investir em um detector do tipo pode representar uma camada extra de segurança.
Imagem: John Kevin
Quando suspeitar de intoxicação?
De acordo com o protocolo do Ministério da Saúde, é considerado caso suspeito quando, entre 12 e 24 horas após ingerir bebida alcoólica, o paciente apresenta combinação de:
- Embriaguez persistente fora do padrão habitual;
- Desconforto gástrico ou dor abdominal intensa;
- Visão borrada ou perda repentina de acuidade visual.
Nessas situações, procure imediatamente um serviço de urgência e informe possível exposição a bebida adulterada. Quanto mais cedo o Fomepizol for administrado, maior a chance de recuperação total.
Próximos passos e impacto para o consumidor
A curto prazo, a chegada do medicamento deve aliviar a pressão sobre hospitais em regiões com surtos de bebidas contaminadas. A médio prazo, a Anvisa negocia o registro definitivo do Fomepizol no Brasil, o que facilitaria futuras importações e reduziria custos. Para o público, a recomendação segue clara: compre bebidas de distribuidores confiáveis, verifique selos de procedência e, se possível, utilize dispositivos de teste rápido — uma precaução que pode evitar emergências graves.
Com informações de Olhar Digital