Imagine um vento tão intenso que deixaria qualquer furacão terrestre no chinelo. Foi exatamente isso que uma equipe internacional de astrônomos detectou ao observar o quasar J2318, localizado a cerca de três bilhões de anos-luz da Terra. Alimentado por um buraco negro supermassivo de 1,7 bilhão de massas solares, o núcleo ativo lança jatos de matéria a impressionantes 30% da velocidade da luz — algo em torno de 323 milhões km/h.
Por que esse recorde é tão importante?
Segundo Lucas Seaton, líder do estudo na Universidade de York (Canadá), a rajada equivaleria a um “furacão categoria 79”, se aplicássemos a mesma escala de ventos usada em meteorologia. A comparação ajuda a ilustrar o quão extremo é o fenômeno: cada categoria de furacão terrestre cresce cerca de 20 % em velocidade, e nós só vamos oficialmente até a categoria 5.
Essa é a corrente de ultravioleta (UV) mais veloz já registrada em qualquer quasar, embora fluxos ainda mais rápidos já tenham sido observados em raios X. A descoberta, publicada no The Astrophysical Journal, pode afinar os modelos que explicam como galáxias se formam e por que algumas deixam de produzir estrelas.
Como um buraco negro consegue soprar tão forte?
Nesses monstros cósmicos, o gás que gira ao redor – o chamado disco de acreção – aquece a níveis absurdos devido ao atrito e brilha em todo o espectro eletromagnético. A pressão da radiação empurra parte do material para fora, criando ventos que, no caso de J2318, ganharam velocidade de foguete.
O detalhe intrigante é o equilíbrio delicado: fótons de alta energia aceleram os átomos, mas podem arrancar todos os seus elétrons, tornando-os “invisíveis” aos instrumentos. Encontrar íons de carbono e silício ainda intactos, como a equipe observou, indica um mecanismo complexo que os simuladores de galáxias agora terão de reproduzir com mais fidelidade.
A ferramental por trás da descoberta
Para flagrar o furacão cósmico, os cientistas recorreram ao SDSS-IV Time-Domain Spectroscopic Survey e ao SDSS-V Black Hole Mapper, ambos projetos do Sloan Digital Sky Survey. O SDSS usa espectrógrafos capazes de dividir a luz em milhares de comprimentos de onda, criando “impressões digitais” de estrelas, galáxias e quasares.
Processar esse volume de dados exige poder de fogo digno de um data center moderno. Laboratórios astronômicos fazem uso intensivo de GPUs similares às GeForce RTX ou Radeon RX que equipam PCs gamers, além de processadores multi-núcleo comparáveis aos Ryzen Threadripper ou Intel Xeon. Para o entusiasta de hardware, é um lembrete de como as tecnologias que turbinam jogos em 4K também impulsionam descobertas nas fronteiras do Universo.
Imagem: NASA
O impacto nos modelos de evolução galáctica
Ventos de buracos negros funcionam como válvulas de escape: eles expulsam gás e poeira — a matéria-prima de novas estrelas — da região central para a periferia ou até para fora da galáxia. Entender quão rápido e quão longe esse material viaja ajuda a explicar por que algumas galáxias “morrem”, parando de formar estrelas, enquanto outras continuam florescendo.
Paola Rodríguez Hidalgo, da Universidade de Washington em Bothell, chama esses fluxos de “elo perdido” entre o buraco negro e a galáxia hospedeira. Se as simulações não incorporarem corretamente esse feedback, subestimam ou superestimam a taxa de formação estelar, alterando todo o quebra-cabeça cosmológico.
E agora? A caça a ventos ainda mais velozes
Embora a equipe não descarte encontrar correntes UV mais rápidas que as de J2318, admitir ser “difícil” já diz muito sobre a raridade do evento. Novos levantamentos espectroscópicos, como o Vera C. Rubin Observatory, deverão ampliar a amostra de quasares extremos — e com sorte revelar tempestades cósmicas dignas de quebrar mais recordes.
No universo dos buracos negros, sempre há espaço para velocidades maiores, energias mais altas e quebra-cabeças mais complexos. Para nós, fãs de ciência e tecnologia, cada descoberta lembra que as mesmas leis da física que governam nossos PCs de mesa também regem esses “furacões” a bilhões de anos-luz de distância.
Com informações de Olhar Digital