Enquanto muitos consumidores ainda comemoram a chegada do 5G, um novo movimento nos bastidores das telecomunicações brasileiras promete ampliar – e muito – a cobertura móvel em todo o país. Na última semana, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) abriu os envelopes do leilão que colocou em disputa a cobiçada frequência de 700 MHz. O resultado consagrou Unifique e Brisanet como as principais vencedoras, com direito a protagonizar boa parte do espectro leiloado.
Mas, afinal, o que significa essa faixa para quem joga online, faz streaming em 4K ou simplesmente quer sinal estável em áreas rurais? A seguir, destrinchamos os números, explicamos o impacto prático para o usuário final e mostramos por que seu próximo smartphone — ou até um roteador 4G/5G — precisa estar de olho na banda 28.
Como ficou o “pedaço do bolo” de 700 MHz
O leilão foi dividido em cinco áreas geográficas. Veja quem levou cada lote de 10+10 MHz (708–718 / 763–773 MHz):
- Lote A1 – Região Norte + Estado de São Paulo: Consórcio Amazônia 5G (controlado pela Unifique) – R$ 7,01 milhões
- Lote A2 – Região Nordeste: Brisanet – R$ 6,27 milhões
- Lote A3 – Região Centro-Oeste: Brisanet – R$ 1,85 milhão
- Lote A4 – Região Sul: Unifique – R$ 3,41 milhões
- Lote A5 – Região Sudeste (exceto SP): Iez! Telecom – R$ 4,43 milhões
Claro, TIM e Vivo até entraram na disputa, mas o regulamento privilegiou players regionais, e as ofertas das gigantes não avançaram para a segunda rodada. Resultado: seus envelopes nem chegaram a ser abertos.
Por que a frequência de 700 MHz é tão valiosa?
A resposta cabe em três letras: IDC — Interior, Dentro de Casa. Ondas mais baixas viajam mais longe, atravessam paredes com maior facilidade e reduzem a quantidade de torres necessárias para cobrir grandes áreas rurais. É o “combo perfeito” para:
- Jogadores que sofrem com lag em ambientes internos;
- Quem faz home office em regiões afastadas dos grandes centros;
- Consumidores que moram em condomínios onde o sinal some nos elevadores e garagens.
Além disso, a banda 28 é compatível tanto com 4G LTE como com 5G NR, o que ajuda os provedores a migrarem gradualmente a rede sem trocar toda a infraestrutura de uma só vez.
Unifique e Brisanet: estratégias distintas, mesma ambição
Brisanet, já conhecida como a quarta maior operadora de internet fixa do Brasil, aposta pesado no Nordeste. A ampliação para o Centro-Oeste reforça sua estratégia de se tornar a favorita dos consumidores que viajam entre essas regiões. Até 2044, período de validade inicial da licença, a empresa terá de cobrir trechos ainda sem sinal da BR-101, além de cumprir metas progressivas até 2030.
Unifique, por sua vez, reforça a presença no Sul (RS e SC) e se lança em São Paulo e em todo o Norte via Consórcio Amazônia 5G. A compra complementa o espectro de 3,5 GHz que a companhia já havia adquirido, permitindo combinações de frequências para oferecer 5G “puro sangue” (SA) onde houver demanda.
Iez! Telecom entra no radar dos entusiastas
Menos conhecida do público, a Iez! ficou com o Sudeste (exceto SP). Mesmo com cerca de 20 torres licenciadas até aqui, a empresa terá de acelerar implantações para cumprir a mesma obrigação na BR-101. Se você mora em MG, RJ ou ES, vale ficar atento às futuras ofertas de planos móveis — concorrência quase sempre se traduz em pacotes de dados maiores ou preços mais agressivos.
Imagem: Internet
O que muda para você, consumidor?
1. Mais cobertura indoor: Sinal forte dentro de casa, escritórios e shoppings, graças à melhor penetração de 700 MHz.
2. Celulares compatíveis se destacam: Modelos que suportam a banda 28, como as linhas iPhone 11 em diante e Samsung Galaxy A/M e S recentes, já estão prontos para aproveitar o novo espectro.
3. Equipamentos 5G residenciais: Roteadores 4G/5G de marcas como TP-Link, Huawei e ZTE vendidos na Amazon costumam trazer suporte à banda 28. Fique de olho nas especificações antes de investir.
4. Roaming até 2030: Até que as redes próprias cubram 100 % das áreas licenciadas, o usuário ainda dependerá do roaming com a TIM (ou outras nacionais) fora da área original de cada regional. A Anatel já avisou: depois de 2030, cada vencedora deverá sustentar sua própria cobertura.
Devo trocar de smartphone ou modem agora?
Se o seu aparelho já suporta a banda 28, ótimo — você provavelmente verá melhora de sinal assim que as redes forem ativadas (o que pode ocorrer em caráter secundário ainda este ano). Caso contrário, vale considerar modelos compatíveis quando for renovar o dispositivo, especialmente se mora nas regiões atendidas pelas novas licenças.
Para gamers que usam modems 4G/5G como “internet reserva”, investir em equipamentos com Agrupamento de Portadora (CA) que incluam 700 MHz pode reduzir picos de latência nos momentos críticos da jogatina.
Próximos passos e cenário a partir de julho
As outorgas definitivas devem ser assinadas entre julho e agosto. A partir daí, Unifique, Brisanet e Iez! passam a deter o uso exclusivo do espectro até 2044, somando-se às obrigações de expansão na frequência de 3,5 GHz (leilão 2021). Há ainda a possibilidade de acordos de roaming regional entre as três, o que, no limite, poderia evoluir para uma consolidação de mercado semelhante à que formou Claro, TIM e Vivo nos anos 2000.
Em outras palavras, a disputa de agora pode definir como – e com quem – você vai se conectar nos próximos 20 anos. Portanto, olho vivo nas especificações dos seus gadgets e nos anúncios das operadoras regionais; o espectro recém-arrematado pode transformar a sua experiência móvel antes do que você imagina.
Com informações de Tecnoblog