Se você estava esperando a Black Friday para trocar de smartphone gastando pouco, é melhor rever o plano. A combinação explosiva de chips voltados a inteligência artificial (IA) e o aumento histórico nos preços de memória RAM e armazenamento está empurrando os modelos de entrada (até US$ 400) para o canto do ringue. Segundo a consultoria Omdia, essa faixa de preço deve encolher 22% só em 2024, enquanto gigantes como Apple e Samsung ampliam o domínio e abocanham juntas 42% do mercado global.
Por que a IA encarece tanto um celular?
A nova geração de aplicativos de IA generativa roda parte dos modelos na nuvem, mas exige mais RAM, armazenamento e processadores dedicados no dispositivo para oferecer respostas instantâneas — seja para resumir e-mails ou turbinar fotos no modo retrato. É justamente aí que o custo dispara. De acordo com o analista Runar Bjorhovde, da Omdia, memória e armazenamento já representam mais de 60% do custo de produção de um smartphone básico.
Para complicar, o preço do DRAM subiu até cinco vezes em apenas 12 meses, graças à forte demanda dos data centers de IA e a gargalos nas foundries. Fabricantes com grande volume, como Apple e Samsung, conseguem negociar contratos melhores. Já marcas menores — pense em Realme, Tecno ou até mesmo alguns modelos de Motorola e Xiaomi — sentem o baque direto na planilha de custos.
Apple e Samsung surfam a onda — e empurram a maré para cima
Mesmo com as vendas globais de celulares caindo cerca de 4% no último ano, Apple ganhou 4 pontos de participação e Samsung, 2 pontos. A estratégia é clara: focar em valor agregado em vez de volume. Os iPhones da linha Pro, por exemplo, devem estrear opções com 8 GB (ou mais) de RAM LPDDR5X e até 2 TB de armazenamento no segundo semestre. Já a Samsung, com a linha Galaxy S e os dobráveis, mantém o apelo premium e pressiona rivais que dependem de volume para lucrar.
Curiosamente, a Apple ainda segura o preço inicial do iPhone SE para atrair quem não quer (ou não pode) pagar caro — mas isso força concorrentes a vender barato por mais tempo, corroendo margens.
Efeito dominó nos “intermediários”
Com a margem apertada, alguns fabricantes começam a cortar linhas menos rentáveis ou a subir os preços de forma silenciosa. Modelos que custavam R$ 1.500 no varejo brasileiro em 2023 já aparecem perto de R$ 2.000 — e com menos memória do que pedem apps de IA que chegam pré-instalados em 2024.
Imagem: Jny Evans
Para o consumidor, o recado é direto: se você precisa de um aparelho para jogos mobile ou criação de conteúdo, talvez valha a pena investir um pouco mais em dispositivos com pelo menos 8 GB de RAM e UFS 3.1 ou superior. No marketplace da Amazon, por exemplo, a diferença de preço entre um modelo com 4 GB e outro com 8 GB caiu nos últimos meses, graças a promoções relâmpago em lotes reduzidos.
OpenAI e o “iPhone da IA” podem aumentar a pressão
Outro fator de incerteza é a possível entrada da OpenAI no mercado de hardware. O processo movido pela Apple contra a empresa sugere que um dispositivo focado em IA embarcada poderia chegar até 2027. Se confirmado, esse lançamento aumentaria ainda mais a competição por DRAM e chips avançados, elevando custos na cadeia de suprimentos — exatamente onde os pequenos já estão sangrando.
O que esperar até 2025?
- Aumento gradual do tíquete médio: especialistas projetam que o preço médio global dos smartphones passe de US$ 413 para algo próximo de US$ 460.
- Menos opções baratas: marcas menores tendem a pivotar para nichos (gamers, dobráveis acessíveis, câmeras 200 MP) ou sair de cena.
- Mercado de usados em alta: programas de recompra e smartphones recondicionados devem crescer acima de 15%, oferecendo alternativa para quem busca economia.
No curto prazo, o consumidor brasileiro deve ficar atento a promoções pontuais — muitas vezes limitadas a “viradas de estoque” — e comparar especificações além do processador, checando a quantidade e o tipo de memória. Afinal, com IA rodando até na galeria de fotos, a velha máxima “mais RAM nunca é demais” nunca fez tanto sentido.
Com informações de Computerworld