A China acaba de anunciar um dos projetos mais ambiciosos (e caros) da história da tecnologia: investir cerca de 2 trilhões de yuans, quase US$ 295 bilhões, para criar uma rede nacional de data centers dedicada à inteligência artificial até 2028. O plano, porém, esbarra em um obstáculo de silício bem concreto: a capacidade de produção da SMIC, maior fabricante de chips do país.
O megaprojeto em números
• Orçamento inicial: 2 trilhões de yuans em cinco anos;
• Custo total estimado (incluindo rede elétrica): pode superar 5 trilhões de yuans;
• Responsáveis: Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (projeto) e as estatais China Mobile e China Telecom (operação);
• Meta de conteúdo local: pelo menos 80 % de todo o hardware — aceleradores de IA inclusos — deve vir de fornecedores domésticos, como Huawei.
SMIC: o funil de 7 nm que trava a fila
A SMIC opera hoje seu processo mais avançado, o N+2 (equivalente aproximado a 7 nm), com utilização acima de 93 %. Enquanto Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC) já fabrica a 3 nm e avança para 2 nm, a foundry chinesa ainda não dispõe de litografia EUV e tem capacidade limitada de expansão no curto prazo. Resultado: há uma fila de fabricantes chineses certificados “brigando” pelos mesmos wafers, o que pode desacelerar o cronograma da rede de data centers.
HBM: memória de alta largura de banda também é gargalo
Mesmo que houvesse capacidade extra de wafer, falta o “combustível” de alto desempenho: HBM (High Bandwidth Memory). A produção local é restrita, diminuindo a quantidade de aceleradores Ascend que a Huawei consegue montar. Em 2023, a marca despachou aproximadamente 812 mil chips e prevê US$ 12 bilhões em receita de processadores em 2026 — uma meta que sua cadeia de suprimentos, na prática, mal consegue acompanhar.
Política vs. física: restrições cada vez mais rígidas
• Agosto/2023: data centers devem comprar ao menos 50 % dos chips em fornecedores chineses;
• Novembro/2023: projetos estatais passaram a proibir totalmente aceleradores estrangeiros;
• Obras com menos de 30 % concluídas receberam ordem de retirar hardware Nvidia, AMD e Intel.
Na teoria, as novas regras aceleram a autossuficiência. Na prática, executivos chineses admitem que o país está de cinco a dez anos atrás da fronteira tecnológica em chips para IA. O próprio co-CEO da SMIC, Zhao Haijun, alertou que se corre o risco de construir “rodovias sem tráfego” — data centers prontos, mas ociosos por falta de silício.
Imagem: Larissa Ximenes
Impacto global: por que você deveria se importar
1. Pressão sobre o mercado de GPUs: quanto mais a China restringe Nvidia e AMD, maior a concorrência pelos chips dessas marcas fora do país, o que pode refletir em preços ou disponibilidade de placas de vídeo para consumidores e gamers.
2. Aceleração de alternativas: soluções como os aceleradores Ascend e processadores Loongson podem amadurecer mais rápido, criando opções que, em médio prazo, chegam também ao mercado de PCs e notebooks.
3. Cadeia de suprimentos em xeque: a escassez de HBM sinaliza possíveis gargalos em memórias GDDR nos próximos anos, afetando desde placas de vídeo high-end até consoles de jogos.
Um estresse de US$ 295 bi no ecossistema chinês
O projeto de rede nacional de IA da China é impressionante em escala e orçamento, mas expõe o ponto crítico da estratégia de autossuficiência: não basta capital; é preciso capacidade fabril de ponta. Com a SMIC operando no limite e sem litografia avançada, cada novo megawatt de computação prometido por Pequim depende de wafers que simplesmente não existem hoje. Para observadores de mercado, o anúncio funciona como um verdadeiro teste de estresse para todo o ecossistema de semicondutores chinês.
No curto prazo, prepare-se para ver a guerra de chips impactar tanto data centers quanto o consumidor final: da precificação de GPUs gamer às futuras gerações de notebooks e smartphones. O relógio de 7 nm da SMIC corre — e todo o setor de hardware sente o tique-taque.
Com informações de Hardware.com.br