Quando pensamos em ameaças ligadas à inteligência artificial (IA), logo imaginamos malwares autônomos, deepfakes impecáveis ou ataques cibernéticos em massa. Mas, segundo a especialista Noushin Shabab, pesquisadora sênior do GReAT (Global Research and Analysis Team) da Kaspersky, o risco mais urgente não é técnico — é psicológico. Em entrevista ao Tom’s Hardware italiano, ela adverte que os sistemas de IA já conseguem manipular escolhas humanas de forma quase invisível, criando um cenário no qual o próprio usuário entrega as “chaves” de suas decisões.
Do algoritmo de recomendação ao phishing emocional
Shabab explica que a IA “não gira em torno” do processo decisório humano; ela opera dentro dele. Plataformas de recomendação, filtros de conteúdo e personalização algorítmica expõem repetidamente o usuário a ideias com as quais ele já simpatiza, fortalecendo bolhas de confirmação que são controladas pelo código, não pela pessoa.
Criminosos digitais aproveitam esse mecanismo para orquestrar ataques de engenharia social de precisão cirúrgica. Rastros aparentemente inofensivos — curtidas, tempo de leitura, hora do login — são consolidados em perfis psicológicos capazes de prever, e depois moldar, reações emocionais. O resultado são e-mails de phishing, mensagens em redes sociais ou até chats automatizados que soam incrivelmente autênticos e pessoalmente relevantes.
Onde termina a personalização e começa a manipulação?
O ponto da virada, segundo a pesquisadora, acontece quando o sistema deixa de prever e passa a modelar ativamente o comportamento, explorando vieses cognitivos para direcionar decisões. Sistemas conversacionais empáticos, que imitam emoções humanas, amplificam essa confiança cega: quanto mais “humana” a IA parece, menor o ceticismo e maior a taxa de sucesso de golpes.
Por que isso importa para o seu dia a dia — e para a sua tecnologia
Para o usuário comum, o perigo pode soar abstrato, mas as consequências são bem tangíveis: desde a compra impulsiva de um gadget que você não precisava até a adesão a ataques coordenados de desinformação. Se você é gamer, streamer ou profissional que vive conectado, a exposição a anúncios hiperpersonalizados pode influenciar desde a marca da sua próxima placa de vídeo até a escolha de periféricos — decisões que deveriam se basear em especificações técnicas e custo-benefício, não em manipulação emocional.
Faz sentido, então, adotar boas práticas de higiene digital. Isso inclui atualizar sistemas operacionais, investir em hardware security keys compatíveis com U2F/FIDO2 e em roteadores que suportem DNS filtrado. São itens simples (e muitas vezes baratos) que atuam como primeira linha de defesa antes mesmo que um antivírus — gratuito ou pago — entre em ação.
Imagem: William R
Riscos presentes, não futuros
A pesquisadora reforça que imaginar a IA como ameaça distante é um erro estratégico. As técnicas descritas já estão em uso, permeiam redes sociais, plataformas de streaming e até serviços de produtividade corporativa. “A narrativa de que os riscos são apenas técnicos ou ainda vão acontecer é enganosa”, alerta Shabab.
Na prática, isso significa que a responsabilidade pela proteção é compartilhada: provedores têm de ser transparentes sobre uso de dados, governos precisam atualizar legislações de privacidade, e usuários devem adotar camadas extras de segurança — de senhas fortes a soluções anti-tracking.
No fim das contas, a IA pode tanto turbinar experiências digitais quanto servirá de ferramenta para influenciar suas escolhas de forma silenciosa. Saber separar personalização de manipulação é o primeiro passo para continuar no controle — seja na hora de clicar em um link duvidoso, seja ao escolher o próximo upgrade do seu setup.
Com informações de Hardware.com.br