Um voo a mais de 300 mil quilômetros da Terra, testes de pilotagem manual, roupas que comprimem o corpo contra a gravidade zero e um “remo” futurista para manter a massa muscular: assim foi o oitavo dia da missão Artemis 2, a primeira viagem tripulada da cápsula Orion em direção à Lua desde as históricas missões Apollo.
Onde está a Orion neste momento?
Quando acordaram nesta quarta-feira (8), os astronautas Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen estavam a 322.400 km da Terra e apenas 134.700 km da Lua. Essa distância já coloca a tripulação no seleto grupo de humanos que mais se afastaram do nosso planeta — o recorde anterior pertencia à Apollo 13, em 1970.
Exercícios em gravidade zero: o “flywheel” que pode chegar à sua academia
Para que músculos e ossos não sofram com a falta de peso, a NASA embutiu na Orion um equipamento inspirado em tecnologia de ciclismo de ponta: o volante de inércia (flywheel). Diferente das esteiras e bicicletas da Estação Espacial Internacional, o flywheel usa um disco pesado e cabos de resistência para simular movimentos de remo, agachamento e até levantamento terra.
• Por que isso importa para você? Empresas de fitness já começam a adaptar esse mesmo conceito para ergômetros compactos — ideais para quem tem pouco espaço em casa. A microgravidade força a NASA a inovar em equipamentos portáteis e silenciosos, e esses avanços acabam chegando ao mercado consumidor em versões menores e mais baratas.
Vestimenta anti-tontura: a tecnologia de compressão que salva o dia
Além do treino, os quatro astronautas vestiram um traje especial contra intolerância ortostática. O nome assusta, mas o princípio é simples: em longos períodos sem gravidade, o sangue “fica preguiçoso” e não sobe como deveria até o cérebro. O resultado, na volta à Terra, pode ser tontura ou até desmaio.
A solução da NASA é comprimir a parte inferior do corpo — algo parecido com as meias de compressão usadas por atletas, só que em escala integral. Essa roupa é testada por baixo do Traje de Sobrevivência da Tripulação Orion, que lembra um macacão laranja de alta pressão.
• Comparando gerações: nas missões Apollo, os astronautas dependiam quase exclusivamente de treinamento prévio e repouso pós-voo. A Artemis 2 leva a bordo sensores que medem pressão sanguínea em tempo real, ajustando a compressão conforme a necessidade — um ganho gigantesco em segurança.
Testes de pilotagem manual: a tripulação assume o manche
Por volta das 23h55 (horário de Brasília), o quarteto tomou o controle da Orion para uma demonstração de pilotagem manual. A meta era alinhar a cápsula com a cauda voltada para o Sol, coletando dados extras dos sistemas de navegação e, de quebra, otimizando a temperatura dos painéis solares de 11 kW.
Esse exercício já havia sido feito no início da missão, mas repetir o procedimento em diferentes distâncias fornece à NASA um mapa completo do “comportamento” da nave — fundamental para futuras viagens rumo a Marte, onde a latência na comunicação tornará o controle remoto a partir da Terra inviável.
Comunicação direta com a Terra — e com o Canadá
Os astronautas receberam uma mensagem da Agência Espacial Canadense (CSA), celebrando a participação de Jeremy Hansen, o primeiro canadense a se afastar tanto da Terra. Pouco depois, a tripulação teria um bate-papo ao vivo com jornalistas às 22h45, reforçando a tradição da NASA de manter total transparência nas operações.
Imagem: NASA
Impacto prático: por que acompanhar a Artemis 2?
• Para o gamer e o entusiasta de hardware: cada sensor de pressão, giroscópio ou circuito de navegação testado na Orion utiliza processadores e FPGAs resistentes à radiação — muitos baseados na mesma arquitetura ARM presente em celulares topo de linha e placas-mãe de mini-PCs vendidos na Amazon.
• Para quem curte wearables: os biômetros que monitoram batimentos cardíacos no espaço são versões militarizadas dos sensores ópticos de smartwatches. A calibração em microgravidade alimenta algoritmos que depois chegam a pulseiras de fitness do dia a dia.
• Para o fotógrafo amador: as câmeras que registram a Terra e a Lua usam lentes com estabilização óptica reforçada. Expectativa é que parte desse know-how desembarque em câmeras mirrorless de próxima geração.
O que vem a seguir?
O cronograma oficial da NASA prevê mais duas correções de trajetória antes do retorno. No décimo dia, o módulo de serviço se separa e o escudo térmico da Orion encara temperaturas de até 1.650 °C durante a reentrada. Para pousar, a nave se vale de um balé de 11 paraquedas, reduzindo a velocidade final para apenas 27 km/h — menos do que a de um carro em zona urbana.
Se tudo correr como planejado, a cápsula vai mergulhar no Pacífico e será resgatada por navios da Marinha dos EUA, fechando o capítulo mais audacioso da exploração lunar desde 1972.
No ritmo em que os testes avançam, especialistas já consideram a Artemis 2 a prova definitiva de que o hardware — tanto da Orion quanto do gigantesco foguete SLS — está pronto para levar humanos de volta à superfície da Lua na Artemis 3. Até lá, cada pequeno ajuste em trajes, sensores e sistemas de navegação gera uma cadeia de inovações que, em alguns anos, pode estar no seu pulso, no seu PC ou até no equipamento de academia da sua casa.
Com informações de Olhar Digital