Quem sonha em montar ou atualizar o PC, de olho em processadores mais potentes e placas de vídeo mais baratas, deve ficar atento aos movimentos do outro lado do globo. A indústria chinesa de semicondutores acaba de ultrapassar a meta de nacionalização de equipamentos um ano antes do planejado, atingindo 35 % de maquinário doméstico nas fábricas – cinco pontos acima do objetivo estipulado para 2025. O avanço é expressivo, mas ainda há um “chefão final” no caminho: a litografia, etapa crítica que define o quão pequeno (e eficiente) um chip pode ser.
O que a China já domina dentro das fábricas
Segundo a consultoria TrendForce, máquinas chinesas já respondem por mais de 40 % das etapas de gravação química (etching) e deposição de filmes, processos fundamentais para CPUs, GPUs, SSDs e qualquer outro semicondutor que você encontra hoje na Amazon. Na prática, isso significa que o país consegue produzir boa parte dos equipamentos necessários para as chamadas “tecnologias maduras” – nós de 28 nm ou superiores, suficientes para roteadores Wi-Fi, TVs 4K ou placas de vídeo de entrada.
Alguns exemplos que mostram o salto de qualidade:
- Um equipamento de etching capaz de lidar com wafers de 5 nm está em fase de validação dentro de linhas da TSMC, a mesma fundição que fabrica os chips da família Ryzen, Radeon e GeForce.
- Fornos Naura já representam 60 % das máquinas usadas pela SMIC para produzir semicondutores em 28 nm.
- Na YMTC, referência em memória 3D NAND (presente nos SSDs NVMe vendidos no varejo), a participação de depositadores de filme da Piotech saltou de 15 % para 30 %.
Pedidos explodem (e revelam um paradoxo)
Com incentivos governamentais, a procura por equipamentos nacionais cresceu 80 % em apenas um ano; a Naura já tem a agenda de pedidos preenchida até o primeiro trimestre de 2027. O governo chinês, porém, exige que novas fábricas usem no mínimo 50 % de máquinas locais. Resultado: a velocidade de expansão das foundries diminui porque não há estoque suficiente – um gargalo de oferta que também afeta, indiretamente, o consumidor final esperando por uma RTX 4070 mais em conta.
Litografia: o elo ainda faltando
Mesmo com o progresso, apenas 18 % dos scanners de litografia em uso são chineses. E aqui está o ponto-chave: quanto mais avançada a litografia, menores são os transistores, maior a eficiência energética e melhor o desempenho dos chips. Para chegar a processos de 7 nm, 5 nm e 3 nm (onde nascem as GPUs Ada Lovelace, os Ryzen 7000 e os Apple M3), é praticamente obrigatório recorrer à litografia EUV, tecnologia monopolizada pela holandesa ASML – que, desde 2023, enfrenta restrições de exportação para a China.
Empresas locais como a SMEE correm contra o tempo para desenvolver alternativas, mas especialistas estimam um hiato tecnológico de pelo menos cinco anos. Até lá, a estratégia chinesa é reforçar a produção em nós maduros, área em que já incomoda concorrentes japoneses, europeus e norte-americanos.
Imagem: William R
O que isso significa para quem compra hardware no Brasil?
• Preços mais previsíveis nas linhas de entrada: conforme a China reduz importações, o custo de fabricação de chips de 28 nm a 40 nm pode cair, impactando roteadores, placas-mãe e GPUs básicas vendidas na Amazon.
• Batalha pelos chips avançados continua: sem acesso pleno ao EUV, a oferta de GPUs topo de linha e CPUs de última geração segue concentrada em fábricas como a TSMC de Taiwan, o que mantém margens de preço mais altas.
• Diversificação da cadeia: quanto mais players produzem máquinas e chips, menor o risco de escassez como a vista em 2020–2021, quando processadores simples chegaram a dobrar de preço.
Em resumo, a China ganhou musculatura para equipar suas fábricas, mas ainda precisa vencer o estágio mais complexo da produção para mexer de forma decisiva no mercado de alto desempenho. Quem monta PCs ou faz upgrade deve continuar de olho: a próxima geração de GPUs, SSDs e processadores ainda depende de uma cadeia global bastante delicada — e de scanners de litografia que valem literalmente seu peso em ouro.
Com informações de Hardware.com.br