Baixar “aquele” joguinho de cartas para passar o tempo pode custar muito mais do que alguns minutos de diversão. Uma investigação da ESET revelou que títulos hospedados na plataforma sqgame.net vinham de fábrica com o BirdCall, um backdoor poderoso capaz de varrer todo o seu smartphone, gravar o áudio ambiente e enviar tudo, silenciosamente, para servidores controlados por agentes ligados ao grupo norte-coreano ScarCruft / APT37.
O que aconteceu?
Segundo o relatório, pelo menos dois jogos Android – populares entre a comunidade coreana na região de Yanbian, China – foram adulterados fora da Google Play. O ScarCruft baixou os APKs originais, injetou o código malicioso e recolocou versões idênticas (à primeira vista) no servidor. Quem instalava o game recebia, de brinde, um pacote de espionagem completo.
Quais dados o BirdCall coleta?
Assim que o aplicativo é aberto:
- Varredura total dos arquivos salvos no dispositivo;
- Leitura de contatos, registros de chamadas e SMS;
- Envio recorrente de modelo do aparelho, IP, status de root e localização aproximada;
- Captura seletiva de fotos (.jpg), documentos Office, PDFs, certificados digitais (.p12) e afins;
- Prints de tela e gravação de áudio entre 19h e 22h (horário local da vítima).
Para burlar filtros de rede, o tráfego é mascarado via contas legítimas no Zoho WorkDrive. Ferramentas corporativas raramente bloqueiam esse tipo de serviço, o que dificulta a detecção.
Por que essa operação mira Yanbian?
A província faz fronteira com a Coreia do Norte e abriga a maior diáspora coreana do planeta. A região é rota de passagem para refugiados e dissidentes, alvos recorrentes do ScarCruft desde 2012. Ou seja: o jogo não era apenas passatempo – era isca.
E a versão para Windows?
No PC o truque foi diferente. O instalador legítimo permanecia limpo, mas o mecanismo de atualização automática do cliente Windows baixava uma mono.dll alterada. Ela carregava primeiro o RokRAT (outra ferramenta do ScarCruft) e, depois, o próprio BirdCall.
Sete mutações em nove meses
A ESET identificou ao menos sete versões do BirdCall para Android, da 1.0 à 2.0, compiladas entre outubro/2024 e junho/2025. Isso indica um desenvolvimento ativo, típico de campanhas patrocinadas por estado.
Imagem: Internet
Como se proteger (sem abrir mão dos seus jogos)
• Prefira sempre a Google Play Store ou lojas oficiais de fabricantes, onde o Google Play Protect consegue agir.
• Mantenha o celular atualizado. Modelos mais recentes com processadores como o Snapdragon 8 Gen 3 e o Tensor G3 contam com módulos de segurança dedicados (TrustZone e Titan M2, respectivamente) que dificultam a execução de códigos não assinados.
• Use um antivírus móvel reputado (Bitdefender, Kaspersky, Norton). Eles adicionam camadas extras de varredura de APKs fora da loja – algo essencial para quem testa betas, mods ou jogos regionais.
• Cuidado com permissões: um game de cartas não precisa acessar microfone, contatos ou SMS. Negar solicitações suspeitas já bloqueia boa parte do BirdCall.
• Para quem joga no PC, considere placas-mãe com TPM 2.0 habilitado e mantenha o Windows Update em dia. O firmware mais novo da série Asus TUF Gaming, por exemplo, fecha brechas em camadas abaixo do sistema operacional.
O impacto prático para você, gamer mobile
Além do óbvio risco de vazamento de dados pessoais, malwares como o BirdCall drenam bateria, RAM e consumo de rede, afetando FPS e tempo de resposta em partidas online. Se você investiu em um controle Bluetooth de baixa latência ou em fones TWS para jogar sem lag, vale garantir a mesma qualidade na proteção digital – afinal, performance não é só taxa de quadros.
Até a publicação desta matéria, os APKs comprometidos ainda estavam no ar. Para quem tem contas na plataforma sqgame, o passo imediato é desinstalar os títulos, rodar uma varredura completa e trocar senhas.
Com informações de TecMundo