A crise global de memória DRAM — antes restrita a PCs e smartphones — acaba de chegar com força total ao coração das redes domésticas e corporativas. Segundo um novo relatório da Counterpoint Research, o custo dos chips de memória usados em roteadores e gateways subiu até sete vezes nos últimos nove meses, contra “apenas” três vezes nos aparelhos móveis. Na prática, isso encarece todo o ecossistema de conectividade e pode apertar o orçamento de quem já estava de olho em um roteador Wi-Fi 6 (ou até 6E) para turbinar o streaming, a jogatina online ou o home office.
O que está por trás dessa disparada?
O fenômeno tem nome e sobrenome: servidores de Inteligência Artificial. Data centers focados em IA devoram quantidades maciças de DRAM e NAND, a ponto de absorver boa parte da produção global. Com a capacidade de fabricação ainda limitada — e investimentos que levam anos para amadurecer —, fabricantes menores de roteadores ficam na fila e pagam um “pedágio” cada vez mais alto para garantir componentes críticos.
Para efeito de comparação, há um ano os módulos de memória representavam cerca de 3 % do custo total de um roteador de entrada ou intermediário. Hoje, já superam 20 %, pressionando sobremaneira marcas com menor poder de barganha. É como se, de repente, um item que custava R$ 10 passasse a custar R$ 70 no orçamento da placa-mãe do aparelho.
Quanto isso pode pesar no seu bolso?
Ainda que gigantes como a TP-Link — líder do mercado norte-americano — não tenham anunciado reajustes oficiais, o histórico recente sugere que aumentos cheguem primeiro aos modelos de linha premium e depois “contaminem” as faixas de entrada. Operadoras de telecom e ISPs também devem repassar parte do custo extra nos seus combos de banda larga, alerta a Counterpoint.
Em outros setores, vimos padrões semelhantes: placas de vídeo e SSDs encarecem primeiro no varejo, depois os preços estabilizam quando a oferta reage. Só que no caso da DRAM para redes, a previsão é de pressão contínua ao longo de 2024 e parte de 2025, justamente porque as grandes foundries priorizam contratos multibilionários com empresas de IA.
Devo comprar meu novo roteador agora ou esperar?
Se o seu aparelho atual já demonstra sinais de fadiga — engasgos em videoconferências, latência alta em jogos ou dificuldade para sustentar vários dispositivos IoT —, especialistas sugerem não adiar muito a troca. Com a tendência de alta sustentada nos componentes, esperar pode significar pagar mais caro ou ficar refém de estoque limitado. Antes de fechar a compra, considere:
Imagem: Marcela
- Wi-Fi 6 vs. Wi-Fi 6E: O padrão 6E opera na faixa de 6 GHz, oferecendo menos interferência e mais banda para streaming 8K e realidade virtual. Se muitos dispositivos na casa ainda são Wi-Fi 5, um bom modelo Wi-Fi 6 pode entregar ótimo custo-benefício.
- Processamento interno: CPUs quad-core de 1,5 GHz ou mais conseguem lidar melhor com VPNs, QoS e múltiplas conexões simultâneas, reduzindo gargalos quando toda a família está online.
- Memória RAM do roteador: Modelos com 512 MB a 1 GB de DRAM lidam melhor com firmware avançado e atualizações de segurança — justamente o componente hoje em falta.
- Peso do ecossistema: Fabricantes como ASUS, TP-Link e Netgear possuem apps robustos, integração com Alexa/Google Home e suporte a malha (Mesh). Compare isso com opções de marcas genéricas antes de decidir.
Como economizar sem abrir mão de desempenho
Se o orçamento está apertado, duas estratégias podem mitigar o impacto:
- Olhar para gerações anteriores: Roteadores Wi-Fi 5 topo de linha de 2022 ainda superam muitos modelos de entrada Wi-Fi 6 em throughput real. Às vezes, a diferença de preço compensa mais do que um ganho teórico de velocidade.
- Aproveitar promoções relâmpago: Grandes varejistas como a Amazon fazem ofertas agressivas em datas sazonais — Prime Day, Black Friday, Cyber Monday. Ativar alertas de preço e usar cupons pode garantir economia antes do próximo repique.
O que esperar do mercado daqui para frente?
A indústria de semicondutores corre para ampliar a produção, mas fábricas novas podem levar de 18 a 24 meses até operar em plena carga. Até lá, a hierarquia de prioridade deve continuar favorecendo servidores de IA e data centers em nuvem. Ou seja, para o consumidor doméstico, a melhor aposta é acompanhar o mercado de perto e agir quando surgir uma oportunidade alinhada às suas necessidades reais.
Em resumo: quem espera pagar o mesmo de 2023 em um roteador intermediário ou topo de linha pode se surpreender negativamente. E, numa época em que jogos online, streaming 4K e home office dependem de conexão estável, subestimar o roteador pode custar mais caro que investir no equipamento certo agora.
Com informações de Hardware.com.br