A cena lembra os anos dourados dos carros autônomos: investidores despejando cheques de nove dígitos, startups divulgando protótipos reluzentes e promessas de que, em breve, teremos robôs andando pela sala de casa e lavando a louça. Só que, desta vez, o alvo da corrida bilionária são os humanoides movidos a inteligência artificial. Segundo a consultoria CB Insights, mais da metade dos impressionantes US$ 95 bilhões investidos por fundos de venture capital no terceiro trimestre de 2025 foi para IA — e uma fatia crescente desse bolo financia empresas de robótica humanoide.
Por que todo mundo quer um robô “quase humano”?
Do Tesla Bot ao Figure 01, o argumento é sedutor: braços que pegam caixas, pernas que sobem escadas e algoritmos que entendem comandos em linguagem natural. Os avanços recentes em modelos generativos — os mesmos que rodam em GPUs NVIDIA H100 ou nos recém-lançados AMD Instinct MI300X — permitem movimentos mais naturais e tomadas de decisão em tempo real. Em teoria, isso reduziria o custo de mão de obra em armazéns, restaurantes e até na sua cozinha.
Para o consumidor final, o impacto pode ser ainda maior. Imagine integrar um humanoide ao ecossistema de automação que você já controla hoje com um Echo Dot ou com um hub Zigbee: em vez de apenas acender lâmpadas, ele poderia trocar o galão de água ou organizar seu setup gamer, passando os cabos do seu teclado mecânico e mouse RGB favorito. Mas, entre o protótipo de palco e o produto na prateleira da Amazon, a distância é longa — e cara.
Investidores respiram fundo: será a próxima bolha?
O revés é o mesmo que derrubou o hype dos carros autônomos: viabilidade técnica e econômica. A Aneli Capital recomenda disciplina: aportes devem focar em modelos de negócios de curto prazo, como licenciamento de software de visão computacional ou parcerias B2B, não em promessas vagas de “robô em cada lar” até 2030.
Rodney Brooks, pai do aspirador robô Roomba, reforça o alerta. Em entrevista ao New York Times, o engenheiro lembrou que “os atuais humanoides ainda não se movimentam, nem manipulam objetos, com segurança suficiente para conviver com pessoas”. Para ele, o ciclo típico de hype — pico de euforia seguido de desilusão — já começou.
A conta de hardware ainda não fecha
Cada protótipo carrega dezenas de atuadores elétricos, sensores LiDAR de última geração e placas com chips ARM + GPUs de borda, como a NVIDIA Jetson Orin, que sozinha ultrapassa US$ 1.600 no varejo. Some a isso baterias de íons de lítio capazes de abastecer motores de 2 kW e durarem apenas 1 hora: é energia cara para pouco tempo de trabalho.
Para comparação, o Roomba mais avançado custa cerca de R$ 7 mil no Brasil e resolve apenas uma função – aspirar. Um humanoide multifunção precisaria custar ao menos três vezes isso para começar a ser interessante ao consumidor, segundo analistas da ABI Research. Ainda assim, as margens de lucro seriam apertadas, especialmente se o robô usar o mesmo tipo de GPU que gamers disputam para montar um PC com RTX 4090.
Imagem: William R
Oportunidades disfarçadas em meio ao risco
Mesmo sob risco de bolha, a corrida cria um ecossistema que pode beneficiar quem monta PCs de alto desempenho hoje. A demanda por treinamento de IA embarcada em robôs pressiona a oferta de GPUs, memórias GDDR6X e SSDs NVMe de baixa latência, impulsionando inovação nessas categorias (e derrubando preços para consumidores finais).
Além disso, fabricantes de placas-mãe já testam slots proprietários para módulos de aceleração de IA, algo que pode chegar ao desktop entusiasta. Ou seja, se você pretende atualizar seu setup para streaming ou edição de vídeo, essa “bolha” pode resultar em hardware mais poderoso e barato nas prateleiras.
O veredito
O dinheiro segue entrando, o marketing continua chamativo, mas a distância entre expectativa e realidade permanece larga. Para investidores, disciplina; para entusiastas, cautela. Ainda assim, a febre dos humanoides deixa um legado imediato: pressão por chips mais rápidos e eficientes, algo que respinga positivamente em todo o mercado de hardware — do seu próximo mouse gamer a futuras placas de vídeo RDNA 4 ou RTX 5000.
No fim das contas, a robótica humanoide pode até passar por um ajuste de rota, mas dificilmente voltaremos ao ponto zero. A pergunta não é mais se, e sim quando veremos um robô ajudando na sua bancada de overclock.
Com informações de Hardware.com.br