Na virada de 14 para 15 de novembro de 2001, a Times Square presenciou algo inédito: em vez de fogos de artifício ou anúncios gigantescos da bolsa de valores, foi o logo verde fluorescente do Xbox que iluminou a esquina mais famosa do planeta. A lendária loja Toys “R” Us transformou-se em um parque temático de tecnologia, com filas que varavam quarteirões e câmeras de TV disputando cada centímetro de espaço. À meia-noite em ponto, Bill Gates surgiu, controle na mão, para vender a primeira unidade do console que marcaria a estreia da Microsoft na “guerra” contra PlayStation 2 e GameCube.
Uma releitura do hype pré-smartphone
As imagens daquela noite — hoje verdadeiras relíquias — revelam um clima que mistura Black Friday com réveillon: gamers de todas as idades, cafezinhos na mão, pulseiras numeradas no pulso e… donuts com cobertura verde Xbox, distribuídos para manter a euforia de pé. Sem redes sociais em tempo real, a fila era o feed: quem chegasse antes garantia prestígio offline e, claro, o cobiçado console.
O herói da fila e a maratona de Halo
O protagonista foi Edward Glucksman, então com 20 anos, que aguardou cerca de 16 horas para receber, das mãos de Gates, o primeiro Xbox vendido oficialmente. À BBC, ele confessou o plano nada modesto: “vou jogar a noite toda, o dia todo, até segunda — talvez terça se tiver sorte”. O jogo escolhido? Halo: Combat Evolved, que logo se tornaria sinônimo da marca e, convenhamos, um ótimo test drive para o hardware da época.
Duke: o controle que virou ícone (e meme)
Outro personagem marcante daquela madrugada foi o Duke, o primeiro controle do Xbox. Enorme e pesado, ele dividiu opiniões: bastavam segundos para surgir elogios à ergonomia — e piadas sobre o “controle-gigante-que-vai-dar-cãibra”. O barulho foi tanto que a Microsoft lançou meses depois o Controller S, menor e mais próximo do que veríamos na linha Xbox 360.
Hardware para bater de frente com os japoneses
Embora o design chamasse atenção, era por baixo do capô que o Xbox ousava desafiar Sony e Nintendo. Confira a ficha técnica que, em 2001, soava futurista:
- CPU: Intel Pentium III customizado, 733 MHz
- GPU: NVIDIA NV2A, equivalente a uma GeForce 3
- Memória: 64 MB de DDR SDRAM unificada (o dobro do PS2)
- Armazenamento: HD interno de 8 GB — primeiro console com disco rígido de fábrica
- Rede: Entrada Ethernet 10/100, plantando a semente do futuro Xbox Live
Na prática, esses números permitiam textures mais nítidas, carregamentos menores e som surround em jogos como Project Gotham Racing. Na vitrine da Toys “R” Us, as estações de Halo rodavam em 480p e 60 fps, algo incomum para PCs medianos da época.
Comparativo rápido: Xbox vs. PlayStation 2 vs. GameCube
Para entender por que a Microsoft insistiu na narrativa de “console mais poderoso”, vale um comparativo de contexto:
| Especificação (2001) | Xbox | PlayStation 2 | GameCube |
|---|---|---|---|
| CPU | Pentium III 733 MHz | Emotion Engine 294 MHz | PowerPC 485 485 MHz |
| Memória | 64 MB DDR | 32 MB RDRAM | 43 MB (24 MB principal) |
| Armazenamento | HD 8 GB | Cartões de memória | Cartões de memória |
| Mídia | DVD-ROM 9 GB | DVD-ROM 4,7 GB | Mini-DVD 1,5 GB |
Os números favoreceram a Microsoft em marketing, ainda que a liderança em vendas continuasse com a Sony naquele Natal. Porém, se você valoriza gráficos e som mais encorpados, era difícil ignorar o “tanque” verde-preto.
Imagem: William R
A moeda secreta do lançamento
No meio das caixas e das luzes de neon, alguns convidados de honra receberam um token exclusivo: uma moeda comemorativa do lançamento. Forjada em quantidade limitada, ela se tornou item de colecionador disputado em leilões — um lembrete físico de que aquele não foi apenas mais um “product launch”, mas o início de um ecossistema que hoje engloba cloud gaming e serviços como Game Pass.
Preço, mercado e legado
O primeiro Xbox chegou às prateleiras dos EUA por US$ 299, exatamente o mesmo preço de lançamento do PlayStation 2. Os jogos eram tabelados em US$ 49,99. Para efeito de comparação, o PlayStation 2 já somava mais de 20 milhões de unidades vendidas quando a Microsoft entrou na festa. Mesmo assim, o “rookie” vendeu 1,5 milhão de consoles até o fim de 2001 — número respeitável diante da concorrência japonesa.
Em perspectiva, aquele disco rígido interno, a porta Ethernet e o halo de Halo pavimentaram recursos que hoje consideramos padrão: saves automáticos na nuvem, matchmaking online e instalação de jogos em SSD. Se você curte componentes de PC ou avalia upgrades para jogar em 4K, aquele Xbox original foi o elo entre o hardware tradicional de computadores e a experiência de sofá.
Mais de duas décadas depois, as placas de vídeo NVIDIA superaram 80 TFLOPs e os processadores Intel beiram 6 GHz, mas a ambição exibida na Times Square em 2001 continua ecoando em cada novo anúncio das linhas Xbox Series e mesmo nos rumores sobre um futuro “Xbox portátil”. Afinal, tudo começou quando Bill Gates decidiu vender videogames na madrugada fria de Manhattan.
Com informações de Hardware.com.br