Há pouco mais de uma década, a AMD FirePro S10000 era apresentada como um “monstro” para estações de trabalho: duas GPUs Tahiti completas no mesmo PCB, 6 GB de GDDR5 e nada menos que 4,5 TFLOPs de poder bruto em precisão simples. Mas, passados 12 anos, será que esse colosso — que chegou a custar US$ 3.599 — ainda entrega algo além de nostalgia? O canal RandomGaminginHD aceitou o desafio, ressuscitou o modelo e trouxe respostas que dizem muito sobre o fim das configurações multi-GPU.
Especificações dignas de lenda (em 2012)
Cada chip Tahiti da FirePro S10000 oferece 1.792 stream processors, 112 TMUs, 32 ROPs e um bus de 384 bits para 3 GB de memória GDDR5 (6 GB no total). No papel, ela fica a um passo da Radeon HD 7990, a versão gamer dual-GPU da época, porém com alguns núcleos desativados em nome da estabilidade profissional. O TDP declarado é de 375 W — ou seja, uma fonte de respeito sempre foi pré-requisito.
Plot twist: FirePro ou W9000 X2?
Durante o desmontar da placa, o youtuber descobriu algo inusitado: sob o adesivo “S10000” havia a inscrição “W9000 X2”. Fontes da época confirmam que a AMD teria renomeado o produto às pressas pouco antes do lançamento oficial, o que explica o “duplo registro” exibido pelo GPU-Z no Windows.
Drivers oficiais? Esqueça. Hora de flashar a BIOS
De fábrica, a S10000 aceita apenas os drivers Radeon Pro/FirePro 17.4, que não ativam CrossFire. Resultado: em jogos, metade da placa fica ociosa. A saída foi gravar a BIOS de uma Radeon HD 7990. Depois disso, o Windows 10 passou a reconhecê-la como placa gamer, permitindo a instalação do pacote Adrenalin 22.6.1 — o último com suporte aceitável para componentes tão antigos.
Clássicos em alta velocidade
Com o CrossFire finalmente ativo, títulos lançados na “era de ouro” do multi-GPU brilharam:
- Crysis (2007): mais de 110 FPS, uso das duas GPUs na casa dos 65%.
- Mafia II: ambas as GPUs acima de 90%, gameplay estável e fluido.
- GTA V e Crysis 3: resultados próximos aos de uma única HD 7970, evidenciando que o ganho dependia muito da implementação do perfil.
Em 2013, isso era sinônimo de topo de linha. Hoje, qualquer Radeon RX 6600 — disponível nos varejistas nacionais por valores bem mais amenos — entrega experiência similar consumindo menos da metade da energia.
Jogos novos, metade da potência
Títulos recentes simplesmente ignoram configurações multi-GPU. Cyberpunk 2077, Arc Raiders e Counter-Strike 2 rodam como se existisse apenas um chip ativo:
- Arc Raiders: 40–45 FPS em 1080p no mínimo, com escala de resolução a 70%;
- CS2: 120–160 FPS — mostra que o Tahiti ainda respira em e-sports menos pesados;
- Cyberpunk 2077: 20–30 FPS mesmo usando FSR em modo Ultra Performance, que deixa a imagem quase irreconhecível.
Nesses cenários, a placa consome praticamente o dobro de energia de uma HD 7970 para entregar desempenho idêntico. Em comparação, uma GeForce RTX 4070 (que já aparece em promoções) faz 90 FPS em 1440p com Ray Tracing médio e DLSS Balanceado, consumindo menos de 200 W.
Imagem: William R
Por que SLI e CrossFire foram para o museu?
Em teoria, duas GPUs dobram a capacidade de processamento. Na prática, desenvolvedores precisam dedicar tempo para particionar a renderização quadro a quadro — algo caro e de retorno duvidoso. Além disso, problemas de microstuttering, maior latência e um segundo conector de energia encareciam a brincadeira.
Com a evolução dos nodes de litografia e de arquiteturas como NVIDIA Ada Lovelace ou AMD RDNA 3, uma única GPU de R$ 6–7 mil supera — com folga — qualquer solução dual de gerações anteriores, consumindo menos energia e oferecendo recursos modernos como Ray Tracing e codificação AV1.
Vale a pena caçar uma FirePro S10000 hoje?
Para colecionadores, entusiastas de hardware retro ou quem quer experimentar os primórdios do 4K, a resposta pode ser “sim”. Mas para jogar títulos atuais ou trabalhar com produtividade moderna (Blender, DaVinci Resolve, IA generativa), é mais negócio mirar em placas como Radeon RX 7600 ou GeForce RTX 4060 Ti, que já saem da caixa com suporte a DirectX 12 Ultimate, codificadores HEVC/AV1 e consumo civilizado.
Em outras palavras, a FirePro S10000 é uma peça histórica fascinante — e barulhenta, sedenta por watts e dependente de gambiarras. Se a ideia é montar ou atualizar o PC para jogar em 2024, investir em uma GPU única, atual e eficiente continua sendo o caminho mais lógico.
Com informações de Hardware.com.br