A cotação da memória RAM não para de subir no Velho Continente: em apenas três meses, os módulos DDR4 e DDR5 vendidos no varejo europeu ficaram, em média, 200% mais caros. Por trás dessa disparada está uma mudança estratégica dos maiores fabricantes de DRAM, que passaram a dedicar capacidade produtiva quase exclusiva a data centers e projetos de inteligência artificial (IA). O consumidor comum – aquele que está montando ou atualizando o PC gamer em casa – virou figurante na fila de atendimento.
Data centers e IA ocupam a linha de produção
Empresas como Samsung, SK Hynix e Micron Technology convivem hoje com pedidos bilionários de serviços em nuvem, plataformas de IA generativa e supercomputadores. Esses clientes corporativos pagam mais e compram em volumes astronômicos, o que torna a margem de lucro muito mais atraente do que a venda de pentes de 16 GB para o consumidor final.
Para reforçar a guinada, a Micron anunciou o fim da marca Crucial Ballistix, linha gamer que durante anos serviu de porta de entrada para entusiastas. A decisão sinaliza que a prioridade se chama HBM3E e GDDR7 — tipos de memória de alto desempenho usados em GPUs para IA e placas de vídeo topo de linha.
Do “dobrou” ao “triplicou” – e segue subindo
Em fevereiro, o site alemão ComputerBase já relatava que o preço da RAM havia duplicado desde o fim de 2023. Agora, o mesmo monitoramento aponta uma alta acumulada de três vezes no varejo. Módulos DDR5 de 32 GB que custavam € 89 há quatro meses aparecem hoje listados por mais de € 250.
Armazenamento também sente o baque
Se a memória principal virou artigo de luxo, os dispositivos de armazenamento não ficaram muito atrás. O estudo alemão mostra que:
- SSDs: aumento médio de 42% no trimestre. Unidades NVMe PCIe 4.0 de 1 TB ultrapassam os € 100, valor que parecia impensável depois de dois anos de quedas sucessivas.
- HDs tradicionais: alta de cerca de 33%, agravando o custo por terabyte nas configurações de grande capacidade para backups e servidores domésticos.
O que isso significa para quem monta ou faz upgrade no Brasil?
O mercado europeu costuma antecipar tendências de preço que chegam, com algumas semanas ou meses de atraso, ao varejo brasileiro. Importadores locais compram lotes internacionais e sentem o impacto quase em tempo real no câmbio. Resultado: promoções agressivas vistas no início do ano, principalmente em DDR4, estão cada vez mais raras.
Para o gamer que planeja trocar para DDR5 junto com uma CPU Intel Core 14ª geração ou AMD Ryzen série 7000, a janela de oportunidade pode estar se fechando. Se você encontra hoje um kit de 32 GB DDR5-6000 CL30 abaixo de R$ 1 000, vale a reflexão: daqui a algumas semanas, esse mesmo conjunto pode custar perto de R$ 1 500, seguindo a tendência global.
Imagem: William R
Por que o ciclo de alta deve durar mais tempo
Especialistas da consultoria TrendForce projetam que a demanda de IA exigirá um aumento de pelo menos 40% na oferta de DRAM até 2025. Contudo, ampliar fábricas (fabs) leva anos e bilhões de dólares. Na prática, a indústria deve permanecer em modo “capacidade limitada” ainda em 2024, sustentando preços elevados tanto para servidores quanto para o varejo.
Estratégias para não ficar refém da carestia
• Aproveite estoques antigos de DDR4: quem não pretende migrar de plataforma tão cedo pode ampliar a memória atual antes que a crise chegue com força total.
• Monitore kits de 24 GB: módulos de 12 GB DDR5 surgiram como alternativa de melhor custo por gigabyte e ainda sofrem menor procura.
• Atenção às promoções relâmpago: varejistas on-line costumam liquidar lotes menores nas trocas de linha. Fique de olho em cupons e cashback.
Embora o quadro europeu pareça distante, o mercado global de semicondutores é integrado. Se a IA continuar sugando cada wafer disponível de DRAM, SSD e até mesmo discos rígidos, a construção ou o upgrade de PCs pode ficar bem mais caro – e mais rápido do que se imagina.
Com informações de Hardware.com.br