Há apenas oito anos testemunhamos a passagem de ‘Oumuamua, o primeiro objeto interestelar já detectado. Em 2024 foi a vez do 2I/Borisov. Agora, o 3I/ATLAS — terceiro corpo vindo de fora do Sistema Solar — está chamando atenção não só pela raridade, mas por exibir jatos de material que lembram criovulcanismo. A atividade reaquece um antigo dilema: afinal, estamos diante de um cometa “exótico” ou de um asteroide com comportamento inédito?
Por que o 3I/ATLAS é tão especial?
Objetos interestelares são formados em torno de outras estrelas e arremessados ao espaço profundo após perturbações gravitacionais. Quando um deles cruza o caminho do Sol, temos uma oportunidade única de analisá-lo antes que ele desapareça para sempre em órbita hiperbólica. O 3I/ATLAS deve realizar apenas uma única passagem pelo Sistema Solar e, no ponto mais próximo, ficará a cerca de 270 milhões de km da Terra — quase o dobro da distância Terra-Sol.
Jatos suspeitos: indício de criovulcanismo
Imagens recentes revelam jatos localizados de gás e poeira saindo de regiões pontuais do objeto. Esse padrão é raro em cometas “caseiros” e sugere a existência de possíveis “vulcões de gelo”, nos quais materiais congelados entram em ebulição e são ejetados. Caso confirmado, seria a primeira detecção de criovulcanismo em um corpo interestelar.
Cometa ou asteroide? O que diz a comunidade
Apesar das especulações, astrônomos como Cristóvão Jacques (Observatório SONEAR) afirmam que o 3I/ATLAS permanece classificado como cometa. Ele apresenta coma — a nuvem de gás que envolve o núcleo — e cauda, atributos ausentes em asteroides puros. Para efeito de comparação:
- 1I/‘Oumuamua (2017): não tinha coma nem cauda e acabou rotulado como asteroide.
- 2I/Borisov (2019): exibia clara atividade cometária.
- 3I/ATLAS (2023): mostra atividade intensa, porém com composição química atípica, possivelmente rica em metais.
Impacto prático: telescópios amadores já conseguem ver?
Mesmo no ponto de maior aproximação, o astro não passará nem perto de ser visível a olho nu. Para registrá-lo, você precisa de um telescópio com pelo menos 150 mm de abertura e câmera acoplável. Modelos como o Celestron StarSense Explorer de 6” (que já vem com alinhamento via smartphone) e o Sky-Watcher Newtoniano 150 mm (famoso pelo custo-benefício) são capazes de captar a coma esverdeada em longas exposições. Se o criovulcanismo estiver ativo, há chance de flagrar mudanças de brilho em poucas horas — um prato cheio para quem faz astrophotography.
Próximos passos da pesquisa
O consenso é que precisamos de mais dados. O telescópio Vera C. Rubin, que entra em operação em 2025, deverá descobrir até um objeto interestelar por ano. Com amostras maiores, os cientistas esperam criar subcategorias de cometas e, quem sabe, explicar de vez as anomalias do 3I/ATLAS.
Imagem: Josep M. Trigo-Rodríguez
Até lá, resta acompanhar cada publicação. E, se você tem um equipamento de médio porte parado em casa, vale apontá-lo ao céu: além de contribuir com dados fotométricos em redes como a BRAMON, você ainda pode testar recursos como guias automáticos e sensores CMOS de alta sensibilidade — acessórios que têm caído de preço e turbinam qualquer setup.
No fim das contas, seja cometa ou asteroide, o 3I/ATLAS é mais um lembrete de que o espaço guarda surpresas que desafiam nossas classificações. E, para o entusiasta de hardware, é a chance perfeita de colocar telescópios, montagens motorizadas e software de empilhamento à prova em um “alvo” literalmente de outro mundo.
Com informações de Olhar Digital