A fabricante chinesa Moore Threads virou manchete em todo o planeta ao estrear na bolsa de Xangai com uma valorização relâmpago de mais de 700%. Dias depois, porém, a própria companhia jogou água fria na euforia, alertando investidores sobre o risco de uma “bolha” no setor de placas de vídeo e IA. Afinal, o que explica um salto tão agressivo — e igualmente volátil — no preço das ações? E, mais importante: o que isso significa para quem acompanha o mercado de hardware, games e inteligência artificial?
Alta estratosférica, recuo imediato
No day one de negociação, cada ação da Moore Threads disparou 425%. Nas sessões seguintes, o ganho adicional de 57% levou o pico de valorização a impressionantes 723% sobre o preço inicial do IPO. Quando o alerta de cautela foi emitido, o papel chegou a recuar 19% ao longo do pregão, fechando a semana em queda de 13%.
O tom do comunicado foi direto: “Invista de forma racional”. Em outras palavras, não compre só porque “todo mundo” está comprando.
Por que o mercado se apaixonou tão rápido?
Existem três catalisadores principais para o entusiasmo:
- Lista de recomendação oficial – O governo chinês incluiu aceleradores gráficos de fabricantes locais, como a Moore Threads, num programa de incentivo a desenvolvedores de IA. Em um país pressionado pelo embargo de chips dos EUA, cada alternativa doméstica ganha status de jóia rara.
- Momento de boom da IA – Startups, universidades e big techs estão famintas por GPUs para treinar modelos generativos. A demanda global recorde faz qualquer player que prometa capacidade de computação se destacar.
- Pedigree do fundador – James Zhang Jianzhong trabalhou 14 anos na Nvidia, o que acrescenta credibilidade à narrativa de que a Moore Threads pode ser “a Nvidia da China”.
Números que não batem com a realidade atual
Apesar do IPO ter levantado US$ 1,13 bilhão — a segunda maior abertura de capital na China em 2024 —, a companhia ainda patina em pontos críticos:
- Sem receita de novos chips: as GPUs MTLink e MTT S80, anunciadas como rivais das RTX 30, não começaram a gerar caixa.
- Atrasos em P&D e fabricação: enquanto Nvidia e AMD já produzem em 5 nm, a Moore Threads ainda depende de processos mais antigos, limitando eficiência energética e performance.
- Prejuízo acumulado: somente nos primeiros nove meses de 2024, a empresa perdeu US$ 102,6 milhões, e analistas projetam equilíbrio apenas em 2027.
- Valuation fora da curva: a relação preço/lucro está 100 vezes acima da média do setor de semicondutores na Ásia.
Como isso afeta gamers e criadores?
À primeira vista, o sucesso de uma nova fabricante pode soar como ótima notícia: mais concorrência significa preços menores. Porém, enquanto a Moore Threads não entregar volumes consistentes e drivers maduros, a oferta global de GPUs para jogos e IA continua dominada por Nvidia (GeForce RTX) e AMD (Radeon RX), ambas facilmente encontradas no varejo brasileiro.
Na prática, se você pretende montar ou atualizar seu PC ainda em 2024, as opções testadas e aprovadas continuam sendo RTX 40, RX 7000 e, em processadores, as linhas Intel Core 14ᵃ geração e AMD Ryzen 7000, todos já disponíveis no e-commerce.
Imagem: William R
O X da questão: tecnologia sob pressão geopolítica
O caso da Moore Threads ilustra como a geopolítica dos semicondutores pode inflar expectativas além do razoável. A China quer autonomia em chips de alto desempenho, e empresas novatas recebem incentivo estatal e atenção de investidores. Contudo, construir um ecossistema de hardware — arquiteturas, software, drivers, cadeia de suprimentos — leva anos e bilhões de dólares.
Para quem acompanha o setor, vale a lição: preços de ações podem explodir antes que a tecnologia esteja pronta. E, claro, novidades são sempre bem-vindas, mas ainda é cedo para prever se uma GPU chinesa competirá tête-à-tête com as placas que você coloca hoje no carrinho da Amazon.
Em resumo: o IPO da Moore Threads provou que o apetite por chips de IA está no auge. Porém, a própria empresa admite que o valor de mercado não reflete sua realidade operacional. Até que entregas e lucro se materializem, o investidor deve pesar risco e retorno — e o consumidor, ficar de olho, mas manter a cautela na hora de escolher a próxima placa de vídeo.
Com informações de Hardware.com.br