Quando a Microsoft cravou 14 de outubro de 2025 como a data-limite de suporte para o Windows 10, parte do mercado correu para prever um “tsunami” de compras de novos PCs. Mas, se dependesse dos números mais recentes da Dell, esse tsunami virou marola. A companhia divulgou receita abaixo das estimativas para seu grupo de computação pessoal e sinalizou que o tão aguardado ciclo de renovação simplesmente não começou.
O que mostraram os números da Dell
No trimestre fiscal encerrado em abril, a divisão Client Solutions Group — que engloba desktops, notebooks e monitores — encolheu cerca de 12% ano a ano, para pouco mais de US$ 12 bilhões. A companhia também reduziu a projeção de vendas para o restante de 2024, indicando demanda contida tanto no varejo quanto no setor corporativo.
A frustração contrasta com a narrativa de parte dos analistas, que contavam com o fim do Windows 10 como estopim para acelerar a migração ao Windows 11 ou para a nova safra de “AI PCs” equipada com NPUs — chips dedicados a inteligência artificial, presentes em modelos como a linha Intel Core Ultra ou nos primeiros notebooks com Qualcomm Snapdragon X Elite.
Por que o alerta de “fim de suporte” não virou urgência
Conversas com departamentos de TI revelam três argumentos recorrentes para adiar a troca de máquina:
- Desempenho ainda satisfatório: processadores de gerações recentes (por exemplo, Intel Core de 12ª e 13ª geração ou AMD Ryzen 5000/7000) continuam entregando folga para tarefas de escritório e colaboração remota.
- Capex sob escrutínio: em um ambiente macroeconômico mais cauteloso, CFOs priorizam projetos com retorno mensurável. Trocar centenas de estações de trabalho pesa no caixa sem gerar receita direta.
- Risco considerado gerenciável: ferramentas de endpoint security e atualizações pagas estendidas da própria Microsoft (ESU) permitem esticar a vida útil do Windows 10 por até três anos, reduzindo a sensação de urgência.
A verba foi para onde o ROI é claro: servidores, IA e nuvem
Enquanto os notebooks encalham, a Dell navega em águas bem mais calmas na divisão de infraestrutura. Servidores com GPUs de data center, soluções de armazenamento em flash e plataformas de IA para análise de dados puxaram alta de dois dígitos na receita do segmento. Em outras palavras, o dinheiro que poderia ir para PCs tradicionais está sendo canalizado para projetos de automação, machine learning e fortalecimento de data centers híbridos.
Efeito dominó no ecossistema — inclusive para o consumidor final
Para quem monta ou atualiza o próprio setup em casa, a mensagem implícita também vale. Componentes como SSDs NVMe PCIe 4.0, mais memória RAM DDR4/DDR5 ou até uma GPU atual da linha NVIDIA GeForce RTX 40 costumam entregar ganhos palpáveis de performance a um custo menor do que um PC totalmente novo. Isso prolonga a vida útil da máquina e posterga, de quebra, a despesa de um laptop zero quilômetro.
Imagem: William R
O que esperar daqui para frente
• Pico em 2025? Analistas agora empurram para o segundo semestre do ano que vem a possível onda de renovação, mais alinhada à data oficial de end of life do Windows 10.
• AI PCs como diferencial, não obrigação: fabricantes já posicionam os modelos com NPU como “prontos para a nova era da IA generativa”. Entretanto, poucas aplicações de produtividade tiram proveito imediato desse hardware, o que reduz o senso de necessidade.
• Monetização via acessórios: mouses ergonômicos, teclados mecânicos e monitores de alta taxa de atualização continuam renovando escritórios e setups gamers sem exigir todo o capex de um sistema completo.
No balanço geral, o fim do Windows 10 segue um gatilho real — mas ainda não forte o suficiente para mexer com o bolso de consumidores e empresas. Quem acompanha o mercado deve ficar de olho no alinhamento de três fatores: esgotamento técnico das máquinas atuais, maturidade do Windows 11 (ou Windows 12) e a consolidação de fluxos de trabalho locais baseados em IA. Até lá, upgrades pontuais e estratégias de segurança continuam adiando a aposentadoria em massa dos PCs.
Com informações de Hardware.com.br