Em março de 2000, a Palm Inc. valia impressionantes US$ 53 bilhões — mais do que Apple, Amazon e NVIDIA somadas naquela época. Vinte anos depois, a marca sobrevive apenas como um rodapé na história da tecnologia. O que transformou a criadora do icônico PalmPilot de fenômeno de vendas em sinônimo de fracasso estratégico? A resposta ajuda a entender por que algumas marcas modernas, como Samsung, Apple e até os novos portáteis para games disponíveis na Amazon, aprendem com (ou repetem) erros parecidos.
O PDA que cabia no bolso (e no orçamento) dos executivos
Lançado em 1996 por Jeff Hawkins, o PalmPilot pesava 160 g, funcionava semanas com duas pilhas AAA e custava US$ 299 — metade do preço do Apple Newton. A proposta era radicalmente simples: agenda, contatos, tarefas e notas que sincronizavam via cabo serial com o PC. Se hoje você consulta o calendário do smartphone em segundos, agradeça ao bloco de madeira que Hawkins carregava como protótipo para provar que menos é mais.
No Brasil, o modelo Professional chegou em 1997 por R$ 499 (quando o salário mínimo era R$ 120). Backlight, protocolo TCP/IP e até um app para controlar despesas tornavam o dispositivo objeto de desejo de executivos e geeks nacionais, uma posição que hoje ocupam tablets compactos e e-readers premium vendidos na Amazon.
Do IPO histórico ao estouro da bolha
A folia na Nasdaq foi curta. Em 2 de março de 2000, as ações abriram a US$ 38, bateram US$ 165 e encerraram o dia em US$ 95. O valor de mercado da Palm superava gigantes como General Motors e McDonald’s, além de ofuscar a própria controladora, a 3Com. O hype, porém, não se refletia nos fundamentos: a receita anual era de “apenas” US$ 1,06 bilhão — valuation 50 × receita, uma relação insustentável até para padrões da bolha ponto-com.
Quando o mercado mudou e a Palm não percebeu
A virada do milênio trouxe dois ventos contrários: internet móvel e telas touch capacitivas. A Palm apostava em botões físicos, stylus e no sistema de escrita Graffiti enquanto rivais como Microsoft (Pocket PC) e BlackBerry adicionavam e-mail em tempo real. A própria Apple, ainda nanica em 2000, preparava o iPhone que chegaria em 2007 para redefinir o segmento.
Erros de gestão aceleraram o tropeço: os fundadores criaram a Handspring, lançando o Visor (concorrente direto) com módulos de câmera e GPS anos antes dos “add-ons” modulares voltarem à moda. A Palm respondeu tarde com o Palm VII (internet wireless caríssima) e os smartphones Treo, cuja interface envelheceu rápido. O webOS de 2009 era brilhante — multitarefa por gestos e nuvem nativa — mas o contrato de exclusividade com a Sprint limitou a base instalada e, sem escala, os desenvolvedores ignoraram a plataforma. A essa altura, iOS e Android já criavam ecossistemas de apps — outro fator decisivo para vendas na Amazon ou em qualquer loja física hoje.
Compra pela HP, liquidação a US$ 99 e adeus definitivo
A HP pagou US$ 1,2 bilhão em 2010 para tentar reviver a marca. Em 2011, o tablet TouchPad foi descontinuado 49 dias após o lançamento e despejado no mercado por US$ 99. Uma corrida às lojas se formou — não muito diferente das promoções relâmpago que vemos em eventos como Amazon Prime Day. Só que, no caso da HP, o desconto significou prejuízo de US$ 885 milhões e a morte comercial do webOS em dispositivos móveis.
Imagem: William R
Lições práticas antes de você clicar em “Adicionar ao carrinho”
1. Valuation sem produto sólido é armadilha. Hoje, startups de IA e criptomoedas exibem números dignos da bolha. Antes de investir (ou comprar), verifique a tração real da empresa e o histórico de entrega de atualizações, como faz quem avalia uma placa-mãe ou um headset gamer.
2. Ecossistema de software vende hardware. O Palm Pre era elogiado, mas tinha poucos apps. Da mesma forma, um console portátil ou um teclado mecânico com software proprietário sem suporte tendem a perder valor de revenda e, pior, atualização.
3. Adaptabilidade importa. A Palm dominava 70 % do mercado de PDAs e ignorou a chegada do touchscreen. Hoje, vemos algo semelhante na corrida dos dobráveis: marcas que não se mexerem rápido podem virar próximas “Palms”.
Entender a história da Palm é mais do que nostalgia; é um guia de compra. Ao pesquisar seu próximo notebook gamer ou processador de 14 núcleos, observe quem inova de forma sustentável e quem apenas surfa na empolgação do momento. No fim, a tecnologia que continua recebendo atualizações — e acessórios facilmente encontrados no marketplace — tende a oferecer o melhor retorno ao seu investimento.
Com informações de Hardware.com.br