Se você desliza o dedo em um iPhone 15 Pro, roda Cyberpunk 2077 em um notebook gamer com placa GeForce RTX ou usa qualquer processador Ryzen da série 7000, há um engenheiro de 94 anos que tornou tudo isso possível: Morris Chang, fundador da Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, a TSMC. Mesmo longe dos holofotes de Elon Musk ou Bill Gates, Chang ergueu a companhia responsável por 7 em cada 10 chips avançados do planeta — e, de quebra, colocou Taiwan no epicentro da corrida tecnológica.
De refugiado de guerra a doutor pelo MIT
Nascido na China em 1931, Chang viu a invasão japonesa e a Revolução Comunista obrigarem sua família a fugir dez vezes antes dos 18 anos. Ao chegar aos EUA, formou-se em engenharia mecânica por Harvard, concluiu mestrado e doutorado em engenharia elétrica no MIT e mergulhou no universo dos transistores na Sylvania. Na Texas Instruments, subiu de engenheiro júnior a vice-presidente de semicondutores e, já em 1976, anteviu: “a fabricação de chips para terceiros será gigante”. A TI ignorou.
O nascimento do modelo de foundry puro
Quando o governo de Taiwan convidou Chang, em 1985, para liderar o ITRI, ele cristalizou sua visão num formato inédito: fábricas 100% dedicadas a produzir chips para quem só projeta, sem jamais concorrer com esses clientes. Em 1987, com US$ 78 milhões — 48% do governo, 28% da Philips, o resto de investidores — nascia a TSMC. O impacto foi imediato: empresas fabless (só design), como Apple, AMD, NVIDIA, Qualcomm e MediaTek, ganharam liberdade para inovar sem gastar dezenas de bilhões em usinas de litografia.
Por dentro dos números que movem seu hardware
Hoje, cada fábrica de ponta da TSMC custa mais de US$ 20 bilhões. No 2º trimestre de 2025, apenas as linhas de 3 nm e inferiores renderam 75% da receita da companhia, que bateu US$ 30 bilhões no período impulsionada por IA, data centers e smartphones premium.
- 3 nm vs. 5 nm: menos consumo de energia, +15% de desempenho; ideal para quem busca notebooks gamer mais finos ou smartphones com bateria que dura o dia todo.
- NVIDIA H100 / B200: fabricados em 4N (uma adaptação do 5 nm da TSMC), sustentam a explosão da IA generativa e, indiretamente, a queda de preço nas GPUs para jogos.
- AMD Ryzen 7000 e Radeon RX 7000: gravados em 5 nm e 6 nm, entregam eficiência recorde e abriram caminho para o step-up nos PCs desktop.
Crises, reviravoltas e liderança inabalável
Aposta arriscada? Sem dúvida. Mas em 1999 as vendas já somavam US$ 1,5 bilhão. Na crise de 2008, Chang — então com 77 anos — voltou ao cargo de CEO, manteve investimentos estratégicos e saiu da tempestade com mais mercado enquanto rivais cortavam custos. Em 2018 aposentou-se como chairman, mas a cultura que prega integridade, foco técnico e 8% da receita em P&D permanece “na sombra do fundador”.
O elo com NVIDIA, Apple e o seu próximo upgrade
Jensen Huang, CEO da NVIDIA, descreve Chang como “uma Nona Sinfonia de Beethoven em forma de carreira”. Não é exagero: toda a geração Ada Lovelace — das RTX 4060 às 4090 — e as futuras RTX 50 dependem da litografia da TSMC. Do lado da Apple, apenas o A17 Pro, o M3 e as próximas gerações do MacBook Air se beneficiam dos 3 nm da gigante taiwanesa, traduzindo-se em mais autonomia de bateria e menor aquecimento.
Imagem: William R
Por que isso importa para quem vai comprar hardware?
Com a TSMC mantendo folga de dois a três anos sobre processos rivais (Samsung Foundry, Intel 18A), produtos fabricados nos seus nós entregam maior desempenho por watt, dissipam menos calor e permitem designs compactos. Na prática, significa desktops mais silenciosos, notebooks gamer que não fritam no colo e placas de vídeo com clocks mais altos sem estourar o consumo.
Portanto, na próxima vez que você pesquisar um processador Ryzen 9 7950X, uma GPU RTX 4070 Super ou mesmo um smartphone topo de linha, lembre-se: há quase um século de experiência destilados no silício — cortesia de Morris Chang — garantindo que cada nanômetro trabalhe a seu favor.
Com informações de Hardware.com.br