A Rússia deu mais um passo para recuperar autonomia em semicondutores ao anunciar, nesta semana, equipamentos nacionais capazes de fabricar chips no processo de 65 nm. A tecnologia — que equipou processadores como o Intel Pentium 4 Prescott e GPUs da série GeForce 7000 em 2004 — deve entrar em operação em 2025, segundo o Institute for Design and Technology of Microelectronics (NIIME) e o Scientific Research Institute of Precision Machine Manufacturing (NIITM). Para Moscou, o salto, mesmo que pareça modesto frente aos padrões atuais, representa uma questão estratégica em meio a sanções que limitam o acesso a máquinas de litografia de ponta.
Por que 65 nm ainda importa para a Rússia?
Após as sanções internacionais impostas em 2022, fabricantes como ASML, Applied Materials e Lam Research deixaram de fornecer equipamentos de litografia avançada ao país. Sem acesso a nós de 7 nm, 5 nm ou 3 nm — dominados por Taiwan, Coreia do Sul e EUA —, a Rússia recuou algumas casas no tabuleiro para, ao menos, garantir produção doméstica de chips dedicados a defesa, automação industrial e sistemas embarcados.
Nesses segmentos, longe do universo de smartphones e placas de vídeo de alta performance, transistores de 65 nm ainda dão conta do recado. Controladores automotivos, roteadores industriais e até consoles retrô rodam perfeitamente em silício dessa geração, priorizando robustez e baixo custo em vez de densidade de transistores.
Como a tecnologia de 65 nm se compara aos atuais 3 nm?
Para o consumidor acostumado a ver produtos como o Apple M3 (3 nm) ou o AMD Ryzen 7000 (5 nm) brilhando em reviews, a diferença chega a ser de ordens de grandeza:
- Densidade de transistores: 65 nm ~100 milhões por cm² vs. 3 nm acima de 250 milhões por mm² (aprox. 25× mais).
- Consumo energético: chips 3 nm podem operar na casa de 1 V com dezenas de watts, enquanto 65 nm costuma exigir tensões e correntes maiores para a mesma frequência.
- Desempenho: frequências máximas mais baixas e latências mais altas em 65 nm limitam aplicações como IA e gaming de alto nível.
Ou seja: enquanto placas de vídeo modernas, como a NVIDIA RTX 4070 (processo 4N da TSMC), entregam ray tracing e DLSS graças a nós inferiores a 5 nm, o silício russo de 65 nm serve a finalidades menos exigentes, mas críticas, como radares e infraestrutura de energia.
Orçamento enxuto ameaça o cronograma
Segundo Maksut Shpak, vice-ministro do Desenvolvimento Digital da Rússia, o programa federal da indústria eletrônica sofre um déficit de 33,1 bilhões de rublos (≈ R$ 1,8 bi). Em 2024, apenas 23,7 bi dos 43,3 bi previstos foram liberados, e a projeção para 2025 é ainda menor: 15,7 bi contra 40 bi planejados. O corte empurrou mais de 60 projetos de P&D para além de 2025, sinalizando que a conquista de 65 nm pode estagnar se o caixa não acompanhar.
O que isso significa para quem monta PCs no Brasil?
Na prática, quase nada muda para quem está de olho em um Ryzen 7 7800X3D ou em um Core i5 14600K. Esses processadores, fabricados em 5 nm e 10 nm Enhanced SuperFin, respectivamente, continuarão inalcançáveis para a litografia russa. Ainda assim, observar o esforço de Moscou ajuda a entender como cadeias de suprimentos globais impactam o preço e a disponibilidade de hardware.
Imagem: William R
Caso o cenário geopolítico piore e mais países enfrentem restrições, o mercado pode ver oscilações de oferta — algo que gamers e criadores de conteúdo já experimentaram durante a crise de semicondutores de 2020-2022. Ter um “plano B” próprio, ainda que em 65 nm, reduz parte desse risco para a Rússia, mas não ameaça a hegemonia de TSMC, Samsung Foundry e Intel Foundry Services em chips de alto desempenho.
Próximos passos
O governo russo ainda busca parceiros regionais para escalar a produção em fabs de 200 mm existentes e, possivelmente, construir linhas de 300 mm no futuro. No entanto, saltar de 65 nm para 28 nm ou 14 nm exigiria investimentos bilionários em litografia óptica imersa ou EUV — tecnologias que permanecem fora do alcance devido às sanções. Até lá, o país deve concentrar esforços em nichos onde robustez vale mais que potência bruta.
Enquanto isso, o resto do mundo segue correndo: TSMC e Samsung planejam processos de 2 nm para 2025-2026, e a Intel aposta no Intel 20A (gate-all-around) já no próximo ano. Para entusiastas de PC, a boa notícia é que essa disputa acirrada costuma derrubar preços das gerações anteriores — um prato cheio para quem procura CPUs e GPUs eficientes em 5 nm ou 6 nm.
No fim das contas, a Rússia celebra uma conquista que, embora datada para o mercado de consumo, garante soberania tecnológica em áreas sensíveis. Já os usuários que buscam o melhor custo-benefício em mouses, teclados mecânicos ou placas de vídeo seguem contando com o avanço frenético da litografia asiática e americana — pelo menos enquanto as cadeias globais continuarem abertas.
Com informações de Hardware.com.br