Imagine reduzir praticamente a zero a conta de aquecimento — e, de quebra, ainda lucrar processando dados para empresas. Foi exatamente isso que um casal de Essex, no leste da Inglaterra, conseguiu ao instalar um mini data center no galpão dos fundos: a despesa mensal caiu de cerca de € 430 para modestos € 45. O segredo está no HeatHub, uma “caldeira digital” abastecida por dezenas de placas single-board Raspberry Pi que transformam o calor desperdiçado de servidores em água quente circulando pela casa.
Da nuvem para o radiador: como o HeatHub funciona
O HeatHub é um projeto da Thermify em parceria com a UK Power Networks, criado para tornar o aquecimento acessível a famílias de baixa renda. Em vez de resistências elétricas ou queimadores a gás, o sistema usa módulos de computação com Raspberry Pi organizados como um pequeno data center. Essas placas executam tarefas de processamento para clientes corporativos — render de vídeos, testes de IA ou análise de dados — e, enquanto trabalham, geram calor constante.
Normalmente esse calor seria dissipado por exaustores, exigindo ainda mais energia para resfriar o ambiente. No HeatHub, ele é capturado por trocadores térmicos e enviado ao circuito hidráulico da residência, aquecendo radiadores e fornecendo água quente.
Economia que cabe no bolso — e no orçamento energético
Para Lesley Bridges, moradora que convive com estenose espinal, manter a casa aquecida não é luxo, mas questão de saúde: o frio agrava a dor e reduz a mobilidade. Antes, a fatura de gás ultrapassava € 400 em meses rigorosos de inverno. Com o HeatHub, o valor despencou para cerca de € 45, uma economia de 90 %. Esse corte drástico libera verba para alimentação, remédios e qualidade de vida, provando que eficiência energética também é inclusão social.
Por dentro do “forno” de Raspberry Pi
A Thermify não detalha o número exato de placas, mas protótipos anteriores do HeatHub exibiam racks com 40 – 60 unidades de Raspberry Pi 4 Model B (até 8 GB de RAM). Cada placa consome em torno de 7 W sob carga, gerando o equivalente a um aquecedor de 280 – 420 W: pouco para um gamer, mas poderoso quando multiplicado por dezenas de módulos e operando 24 h por dia.
Para efeito de comparação, uma caldeira a gás tradicional de 24 kW queima cerca de 2,4 m³ de gás por hora a plena carga. Já o cluster de Pis pode manter um fluxo térmico estável gastando menos de 0,5 kW de energia elétrica — e a conta da luz é bancada pelos clientes que pagam pelo processamento.
Imagem: William R
Não é caso isolado: aquecimento por TI é tendência
Empresas como Heata (também no Reino Unido) e Qarnot (França) seguem a mesma lógica: instalar servidores distribuídos em residências ou prédios comerciais e usar o calor para aquecer ambientes. Grandes data centers de Big Techs já canalizam sua energia térmica para estufas agrícolas e redes de aquecimento urbano na Dinamarca e nos Países Baixos. O case de Essex mostra que a tecnologia pode ser levada ao nível residencial sem gambiarra.
Para quem tem um PC gamer ou workstation com GPU parruda, a ideia não soa tão distante: basta algumas horas de render ou mineração para sentir o cômodo esquentar. A diferença é que, com soluções como o HeatHub, o calor ganha layout hidráulico e utilidade prática, enquanto o processamento vira fonte de renda — algo que placas modernas como NVIDIA RTX 40 Series ou AMD Radeon RX 7000 poderiam potencializar em projetos futuros.
O que isso significa para você — e para o seu bolso
- Menos desperdício: cada watt gasto em computação vira conforto térmico.
- Aquecer e lucrar: a tarefa de jogar calor fora se transforma em modelo de negócio.
- Casa inteligente de verdade: integrar TI e climatização cria um ecossistema único, que pode ser monitorado via apps e ainda alimentar assistentes de voz.
- Escalabilidade: clusters modulares permitem começar pequeno (poucas placas) e ampliar conforme a demanda térmica ou computacional.
Enquanto o HeatHub ainda é piloto no Reino Unido, a iniciativa reforça uma tendência clara: o futuro da computação é hiperlocal, distribuído e sustentável. Seja com Raspberry Pi, mini-PCs x86 ou placas aceleradoras de IA, transformar bytes em calor útil pode ser a próxima revolução no jeito de aquecer casas — e, quem sabe, no mercado de hardware que você encontra hoje mesmo nas prateleiras virtuais.
Com informações de Hardware.com.br