A disputa entre Apple e União Europeia ganhou novos capítulos – e, desta vez, pode impactar diretamente quem pensa em investir em um iPhone, iPad ou até em acessórios como AirTags e Apple Watch. Um documento interno, assinado por Kyle Andeer (vice-presidente da Apple) e obtido pela imprensa internacional, revela a insatisfação da companhia com duas novas investigações abertas pela Comissão Europeia no escopo da Digital Services Act (DSA).
O que está em jogo?
Na prática, Bruxelas suspeita de duas falhas:
- Combate a golpes financeiros: a Comissão diz que a App Store não estaria aplicando medidas “proporcionais” para evitar apps e anúncios fraudulentos.
- Proteção de menores: acusa a Apple de não garantir um “alto nível de segurança” às crianças que usam seus dispositivos.
Se comprovadas, as violações podem gerar multas bilionárias e forçar mudanças profundas no ecossistema iOS.
Por que a Apple ficou tão irritada?
Segundo a carta, a própria União Europeia estaria criando o problema que agora cobra da empresa resolver. Isso porque a DSA convive com outra lei, a Digital Markets Act (DMA), que obrigou a Apple a abrir o sistema para sideloading (instalação de apps fora da loja oficial) e a permitir links diretos para pagamentos externos.
Em outras palavras, a empresa alega que:
“A Comissão está, ao mesmo tempo, proibindo as proteções que sempre usamos e exigindo que protejamos ainda mais os usuários.”
Entenda a contradição
No modelo tradicional da App Store, todo aplicativo é revisado manualmente, o que inclui análise de código, verificação de identidade do desenvolvedor e uso de APIs oficiais. Esse filtro, reforçado por camadas de pagamento via Apple Pay, é o que sustenta as taxas de fraude mais baixas do setor móvel (dados de 2023 apontam 0,0006% de transações suspeitas, contra 0,02% em marketplaces concorrentes).
Com a DMA, a Apple teve de liberar:
- Links externos: o usuário pode ser redirecionado para qualquer site para finalizar a compra — sem criptografia ponta-a-ponta garantida.
- Lojas alternativas: desenvolvedores podem criar marketplaces próprios, cada um com políticas de segurança (ou falta delas) diferentes.
A empresa diz que esses pontos aumentam o risco de golpe e dificultam o controle parental, já que fica impossível aplicar, por exemplo, o Ask to Buy (função que exige aprovação dos responsáveis antes da compra).
Impacto no consumidor: devo me preocupar?
Se você compra jogos, apps de produtividade ou mesmo serviços de streaming pelo iPhone, a mudança pode significar:
Imagem: Jny Evans
- Mais opções de preço: lojas externas podem cobrar menos, pois não pagam a taxa de 15%-30% à Apple.
- Menos padronização: sistemas de reembolso, privacidade e suporte vão variar de acordo com o gateway de pagamento — aquele velho “fale com o vendedor”.
- Potencial exposição a malware: embora o iOS continue com sandboxing, a instalação de perfis ou pacotes não auditados aumenta brechas conhecidas de phishing.
Na dúvida, o consumidor terá que escolher entre comodidade e segurança (modelo Apple) ou flexibilidade e preço (rota DMA).
E se a Apple desistir da Europa?
A hipótese ainda soa extrema, mas o custo regulatório cresce: além das multas diárias (que podem chegar a 5% do faturamento mundial), existe a pressão para adaptar todo o software apenas para o mercado europeu. Seriam duas versões do iOS: uma “global” (com as proteções atuais) e outra “DMA friendly”.
Para quem acompanha hardware, basta lembrar o destino do carregador na caixa: a União Europeia puxou a fila, e o mundo inteiro acabou adotando o padrão. O mesmo pode acontecer aqui — mas há o risco inverso: a Apple decidir vender menos modelos ou lançar recursos depois na UE, como ocorreu recentemente com o Apple Intelligence.
O que esperar nos próximos meses
• Timeline oficial: a Comissão Europeia tem até fevereiro de 2025 para concluir as investigações.
• Atualizações do iOS: a cada beta, a Apple adiciona alertas de segurança para links externos — fique de olho nas notas de versão.
• Possível efeito dominó: Reino Unido e EUA observam de perto; se a Europa vencer, outras jurisdições podem copiar o modelo.
Como esse debate afeta suas futuras compras?
Ao cogitar investir em um iPhone 15 Pro, iPad M4 ou até em acessórios como teclados e mouses third-party certificados pelo programa Made for iPhone, lembre-se: boa parte do valor agregado está na camada de segurança integrada. Se as regras mudarem, produtos com o chip de segurança Secure Enclave e o novo protocolo Passkeys podem se tornar ainda mais atraentes para quem prioriza proteção de dados — fator decisivo na escolha entre marcas.
Resta acompanhar os desdobramentos: caso Bruxelas e Cupertino encontrem um meio-termo, podemos ter o melhor dos dois mundos — mais concorrência, porém sem sacrificar a blindagem que faz do ecossistema Apple um diferencial para quem busca comprar e usar tecnologia com o mínimo de dor de cabeça.
Com informações de Computerworld