Em 1º de abril de 2026 a Apple chega ao cinquentenário — cinco décadas que redefiniram computadores, música, telefones e até a forma como consumimos séries. Entre tantos capítulos, um momento ainda provoca sorrisos em fãs de tecnologia e automobilismo: a tarde em que a “maçã” saiu da placa-mãe, ganhou rodas e chegou a 320 km/h com o ronco de um motor boxer biturbo. Estamos falando da Porsche 935 #71, vestida com o logotipo multicolorido da Apple, que alinhou no grid das 24 Horas de Le Mans em 1980.
A máquina: Porsche 935, o turbo que virou lenda
Lançada em 1976 como evolução de pista para o 930 Turbo de rua, a 935 somou mais de 150 vitórias globais e quatro campeonatos mundiais consecutivos para a Porsche. O ápice veio em 1979, quando o modelo K3 da Kremer Racing venceu Le Mans na classificação geral — um feito jamais repetido por outro 911.
Essa reputação colocou a 935 no radar de qualquer entusiasta, inclusive de Steve Jobs, que exibia sua paixão por Porsches pelas ruas de Cupertino. No ano seguinte, a marca de Stuttgart encerrou o programa oficial com os protótipos 936, abrindo espaço para equipes privadas. Foi aí que a história da Apple entrou na pista.
De uma oficina no Vale do Silício para a Sarthe
Jobs levou seu Porsche 356 para manutenção na oficina de Bob Garretson em Mountain View. A conversa engrenou, “Woz” participou do bate-papo, e Garretson apresentou a ideia: patrocinar o carro da Dick Barbour Racing na temporada IMSA e em Le Mans. Bastou um aceno de cabeça para nascer a 935 mais colorida da história. Até então, grids eram dominados por marcas de cigarro; o arco-íris da Apple quebrou essa monotonia e levou um traço de cultura pop à maior prova de endurance do planeta.
O carro recebeu o chassi 009 00030, um kit aerodinâmico K3 e o número 71. Nas portas e no capô, a Apple Computer surgia em tipografia Garamond, enquanto as faixas em seis cores corriam pelo bodywork branco — o mesmo palette que estampava os primeiros Apple II e que hoje rende acessórios colecionáveis, de adesivos a capas para MacBooks listadas nos marketplaces.
Le Mans 1980: performance e drama
No sábado, 14 de junho de 1980, a 935 “arco-íris” largou em 14º lugar. O trio de pilotos mesclava experiências: Bob Garretson como chefe-piloto, Bobby Rahal (então promessa da Indy) e Allan Moffat, uma lenda australiana-canadense do turismo.
Durante as primeiras dez horas, o carro manteve ritmo consistente, chegando a figurar no top 10. Porém, na volta 133, o temido travamento de pistão — falha recorrente nos motores 3.2 biturbo — encerrou a corrida. Foi a única aparição oficial da Apple em Le Mans, mas o breve stint foi suficiente para construir um ícone cult buscado por colecionadores até hoje.
Imagem: William R
Resultados paralelos e feitos pós-Le Mans
A mesma 935 competiu na IMSA de 1980, conquistando P2 em Riverside e Sears Point, P3 em Road America e um top 10 em Sebring. O chassi ainda venceria as 24 Horas de Daytona de 1981 e, após nova preparação, as 12 Horas de Sebring de 1983. Em 2006, o carro foi restaurado (sem a pintura Apple) e acabou leiloado em 2016 por US$ 4,4 milhões para o comediante e colecionador Adam Carolla — valor impulsionado, claro, pela combinação “Newman + Apple”.
O legado: design que inspira gadgets até hoje
A paleta arco-íris que chamou atenção nas pistas já não faz parte do logo oficial desde 1999, mas segue influenciando acessórios de tecnologia. Basta procurar por keycaps PBT em cores pastel, capas para MacBook em verde menta ou stands de monitor que remetem ao iMac G3 para ver o impacto dessa identidade visual. Para quem curte automobilismo virtual, réplicas em escala 1:18 da 935 Apple e volantes inspirados no modelo podem ser encontrados facilmente em listas de “itens recomendados” nos e-commerces.
Além de trazer cor a um grid cinzento, a parceria Apple + Porsche selou o casamento improvável entre chips de silício e pistões forjados. Hoje, quando a empresa lidera benchmarks com o Apple Silicon M-series, a ousadia daquele patrocínio nos lembra que inovação também vive de experimentos fora da caixa — ou, no caso, fora do gabinete.
Com informações de Hardware.com.br