Você liga a televisão, pega o controle para mudar do noticiário para o PlayStation e, de repente, a tela inteira é tomada por uma oferta que você jamais pediu para ver — e não há botão de skip. A cena, digna de “Black Mirror”, foi relatada por usuários de Smart TVs Hisense com o sistema Home OS (ex-VIDAA) em diferentes partes do mundo. A prática, que começou como um “teste” na Espanha, rapidamente ganhou escala nos EUA, Reino Unido e Alemanha, gerando uma onda de críticas à marca chinesa, dona de 14 % do mercado global de televisores.
O que exatamente está acontecendo?
Segundo depoimentos coletados em fóruns e no Reddit, o anúncio aparece toda vez que o usuário troca de fonte HDMI ou de canal. São peças de tela cheia, veiculadas pela plataforma de publicidade Teads, que impedem qualquer interação durante alguns segundos. Para quem joga, isso significa input lag emocional; para quem assiste a filmes ou esportes, uma quebra de imersão digna de uma falta não marcada pelo VAR.
“Só um teste” ou política oficial?
Em nota enviada à imprensa, a Hisense alegou tratar-se de “um teste pontual restrito à Espanha, já encerrado”. O discurso, porém, não bate com a realidade dos relatos que pipocam fora da Península Ibérica. E há um agravante técnico: os anúncios parecem ser servidor-side, vinculados ao ID de cada TV. Em outras palavras, não é um bug local que você resolve com reset; é uma instrução remota controlada pela fabricante.
Por que isso importa para você?
Além da irritação imediata, a prática levanta questões de privacidade e propriedade do hardware. Se a TV pode empurrar propaganda a qualquer momento, quem realmente manda no aparelho depois que você paga por ele? O tema é relevante para quem pensa em trocar de televisor em 2024, sobretudo gamers que buscam painéis 120 Hz ou cinéfilos que investem em Dolby Vision—funções que exigem HDMI 2.1 sem interferências inesperadas.
Outras marcas também afetadas
O Home OS é licenciado para terceiros, o que amplia o alcance do problema. Modelos de Toshiba, Schneider e Akai listados nos mesmos fóruns relatam a exibição dos anúncios forçados. Somados, são mais de 30 milhões de dispositivos conectados rodando a plataforma, um campo fértil para monetização agressiva.
Concorrentes seguem caminho diferente (por enquanto)
Para quem estuda opções de upgrade, vale notar que fabricantes como LG (webOS) e Samsung (Tizen) ainda limitam anúncios a pequenos banners na página inicial — irritantes, mas menos invasivos que um spot em tela cheia. Dispositivos com Fire TV OS e Google TV também exibem recomendações, porém permitem ajustes para reduzir a frequência ou desativar conteúdos personalizados.
Imagem: William R
Existe saída técnica?
Até o momento, não há firmware oficial que desative completamente a publicidade nas TVs Hisense afetadas. Usuários mais avançados relatam sucesso parcial ao bloquear domínios de anúncios via roteador, mas o método exige conhecimento de rede e pode quebrar serviços de streaming que compartilham os mesmos servidores de CDN. Ficar de olho em uma eventual atualização de software — ou pensar em marcas alternativas — está no radar de quem não quer transformar a sala em um outdoor.
No fim das contas, o caso reabre um debate crucial: quando você compra uma Smart TV, leva para casa uma tela 4K ou um serviço financiado por anúncios que mora na sua parede? A resposta, cada vez mais, depende da postura das fabricantes e da atenção do consumidor na hora de pesquisar os próximos artigos de tecnologia para compor o setup.
Com informações de Hardware.com.br