Steve Jobs é lembrado como o rosto por trás do iPhone e do Macintosh, mas foi no mundo da animação que ele garantiu a maior bolada da carreira. O empresário investiu US$ 10 milhões em uma divisão moribunda da Lucasfilm em 1986, quase quebrou bancando a operação e, duas décadas depois, saiu da mesa com 138 milhões de ações da Disney — equivalentes a 7 % da companhia. Como isso aconteceu? A história envolve um CEO obstinado, um acordo “leonino” com a Disney, um câncer mantido em segredo e uma lista de 75 regras culturais impostas aos novos chefes de Mickey Mouse.
O cheque de US$ 10 milhões que virou dor de cabeça
Quando Jobs comprou a Graphics Group (rebatizada de Pixar) de George Lucas, a divisão era sinônimo de prejuízo: vendia workstations caríssimas que quase ninguém queria, enquanto os curtas em 3D serviam apenas para demonstrar o software RenderMan. Entre 1986 e 1995, o cofundador da Apple despejou cerca de US$ 50 milhões do próprio bolso para manter as luzes acesas. Para efeito de comparação, esse valor ajustado pela inflação ultrapassa os US$ 120 milhões de hoje — mais do que o orçamento completo de animações como “Encanto”.
Disney x Pixar: um contrato “impossível” para a Pixar
O primeiro acordo, assinado em 1991, era 100 % favorável à Disney: todos os personagens, licenciamento e a maior parte dos lucros ficavam com o estúdio do Mickey; à Pixar restava a mão de obra. O cenário mudou em 1995, quando Toy Story arrecadou US$ 401 milhões e provou que animações em CGI tinham apelo de blockbuster. Jobs exigiu 50 % dos lucros e ameaçou pular fora — o primeiro de vários confrontos com Michael Eisner, então CEO da Disney.
Toy Story 2 e o estopim da guerra
A relação azedou de vez quando a Disney classificou Toy Story 2 como “produção para home video”, usando uma brecha contratual que virtualmente zerava o retorno financeiro da Pixar. A ameaça se repetiria em Toy Story 3, e Jobs respondeu com a clássica frase: “Enquanto Eisner estiver lá, nunca mais negocio”. O conflito foi parar nos jornais em 2004, quando o executivo da Apple anunciou o fim das tratativas.
A virada: Bob Iger assume e faz o “pitch” de cinco dias
Com Eisner enfraquecido e um portfólio de animação estagnado, a Disney promoveu Bob Iger a CEO em setembro de 2005. Seu primeiro telefonema foi para Jobs. Em apenas cinco dias, as empresas selaram o lançamento de séries da ABC no iTunes — uma jogada de confiança que abriu caminho para discussões maiores. Na Disneylândia de Hong Kong, Iger percebeu algo alarmante: todos os personagens populares dos últimos dez anos vinham da Pixar. Mickey estava perdendo relevância.
US$ 7,4 bilhões, um segredo médico e 75 cláusulas culturais
O acordo final — uma troca de ações avaliada em US$ 7,4 bilhões — foi anunciado em 24 de janeiro de 2006. Meia hora antes, Jobs revelou a Iger que seu câncer havia retornado e lhe deram 50 % de chance de viver cinco anos. Iger manteve o plano, apostando que o valor da Pixar se sustentava mesmo sem seu fundador. O ponto decisivo veio de John Lasseter e Ed Catmull: 75 tradições da Pixar, do bar gratuito de cereais aos aviões de papel, deveriam ser preservadas. A Disney assinou sem pestanejar.
Jobs no conselho: o acionista barulhento
Com 7 % das ações, Jobs tornou-se o maior investidor individual da Disney e ganhou cadeira no conselho. Seu estilo “hands-on” influenciou desde o redesenho das lojas Disney até o veto a licenciar a marca para cruzeiros genéricos. Ele até sugeriu comprar a ilha de Lanai, no Havaí, para criar um parque exclusivo. Iger e Jobs se falavam várias vezes por semana, e a parceria é creditada por reviver tanto a Pixar quanto a divisão de animação da Disney.
Imagem: William R
Resultado financeiro: do prejuízo ao pico de US$ 23 bilhões
No fechamento do negócio (maio de 2006), a fatia de Jobs valia US$ 3,9 bilhões. Após sua morte em 2011, o pacote de ações foi transferido para um trust administrado por Laurene Powell Jobs. Hoje, esse mesmo bloco ultrapassa US$ 23 bilhões — quase seis vezes o valor original. A ironia: foi a Pixar, não a Apple, que primeiro colocou Jobs no clube dos bilionários, ainda em 1995, quando a empresa abriu capital a US$ 22 e fechou o dia valendo US$ 39.
Por que isso importa para o consumidor de tecnologia?
Além do drama corporativo, a história mostra como decisões de investimento impactam o que chega à tela do seu notebook ou smart TV. Sem a ousadia — e o bolso fundo — de Jobs, não teríamos as ferramentas de renderização que influenciaram até placas de vídeo modernas. Tecnologias desenvolvidas para Procurando Nemo e Os Incríveis serviram de benchmark para GPUs que hoje rodam seus jogos favoritos, do RTX 4090 ao “humilde” APU Ryzen de laptops gamer.
No fim, a maior lição é clara: apostar em inovação pode ser financeiramente arriscado, mas também pode render um assento no conselho da maior empresa de entretenimento do planeta — e alguns bilhões em ações, de brinde.
Com informações de Hardware.com.br