A mesma avalanche de servidores e placas de vídeo voltadas à Inteligência Artificial (IA) que fez o preço das GPUs disparar agora ameaça chegar à sua sala de estar. Analistas da TrendForce voltaram a alertar: a escassez de chips de memória DRAM e NAND provocada pela “fome” das Big Techs deve encarecer de forma inédita a produção de Smart TVs a partir de 2026 — e o repasse ao consumidor pode começar bem antes, entre seis e doze meses.
O que mudou no mercado de chips?
Data centers de IA, montados por gigantes como NVIDIA, Microsoft e Google, consomem quantidades colossais de memória de alta velocidade (HBM, DDR5) e armazenamento flash. Pagando prêmios milionários para garantir lotes exclusivos, essas empresas “puxam” praticamente toda a capacidade das fábricas de semicondutores. O CEO da Phison, Pua Khein-Seng, confirma que a alocação preferencial para IA já provoca atrasos em cadeias de suprimentos de eletrônicos de consumo — celulares, notebooks, roteadores e, claro, televisores.
Por que uma TV precisa mesmo de tanta RAM?
À primeira vista, televisão lembra tela, não memória. Mas as Smart TVs 4K e 8K atuais rodam sistemas operacionais complexos (Google TV, webOS, Tizen) e chegam a embarcar de 1 GB a 8 GB de DRAM — número comparável a muitos notebooks de entrada de poucos anos atrás. Esses chips são cruciais para:
- Carregar interfaces cada vez mais gráficas e animadas;
- Manter apps de streaming como Netflix, YouTube e Amazon Prime abertos em segundo plano;
- Processar buffer de vídeo em 4K/8K a 120 fps sem engasgos;
- Executar algoritmos de upscaling por IA que melhoram nitidez e contraste de conteúdo Full HD.
Comparativo rápido: ontem vs. hoje
• Smart TV 2019 (4K): média de 1,5 GB de RAM DDR4, upscaling tradicional.
• Smart TV 2024 (4K/8K): entre 4 GB e 8 GB de RAM DDR5, upscaling via rede neural dedicada, assistentes de voz de baixa latência.
Resultado: dobra o consumo de memória, triplica a demanda por NAND para firmware e cache.
Impacto direto no bolso do consumidor
A Samsung, líder global em TVs, já discute internamente reajustar as próximas linhas de QLED e OLED. Enquanto os estoques atuais seguram os preços, analistas estimam que modelos premium — aqueles de 55 pol. 120 Hz com HDMI 2.1 e taxa de atualização variável, tão desejados por gamers — podem ficar até 20% mais caros em 2025, chegando ao varejo com reajustes completos em 2026.
Vale a pena antecipar a compra?
Se você mira uma tela grande para aproveitar o PlayStation 5 ou as novas GPUs RTX 40-Super em todo seu potencial, o “timing” pode ser crucial. Quem adquirir modelos ainda de 2024/2025 pode escapar da onda inflacionária. Além disso, estas TVs contam com os mesmos recursos-chave (VRR, ALLM, Dolby Vision) que deverão equipar as versões futuras — mas com preço mais palatável.
Imagem: William R
Diga-se de passagem: não é só a TV
O enc encarecimento da DDR5 e da NAND também pode refletir em soundbars com assistente de voz, repetidores Wi-Fi 6/6E e até em set-top boxes Android. Todos dependem dos mesmos chips “disputados” por IA.
Em resumo, um efeito dominó provocado pela corrida à Inteligência Artificial está esticando a oferta de memória até o limite. Caso o quadro persista, veremos os televisores — peça central do entretenimento doméstico — repetirem o enredo recente das placas de vídeo: menos estoque, mais disputa e, inevitavelmente, preços mais altos.
Com informações de Hardware.com.br