Imagine um felino do tamanho de uma onça-pintada moderna, porém ainda mais robusto, abatendo criaturas que pesavam quase uma tonelada. Essa é a conclusão de um estudo publicado pelo grupo editorial britânico Taylor & Francis que rastreou marcas de mordidas em fósseis do Pleistoceno – a “Era do Gelo” sul-americana. O trabalho, assinado por pesquisadores brasileiros e internacionais, aponta a preguiça-gigante (Eremotherium laurillardi) e o enigmático Xenorhinotherium bahiense como alvos de predadores felinos que se comportavam, em essência, como as onças atuais, mas em escala XXL.
Como os cientistas chegaram a essa pista dentária?
A equipe liderada pelo paleontólogo Mário A. T. Dantas, da Universidade Federal da Bahia, comparou a geometria de perfurações ósseas encontradas em fósseis baianos e pernambucanos com o formato dos dentes de dezenas de carnívoros extintos e atuais. Larvas de insetos e processos de erosão também foram considerados – e descartados. Restou o encaixe quase perfeito com a arcada de Panthera onca, reforçando que as onças de então não se limitavam a capivaras ou cervos, mas encaravam literalmente “pesos-pesados”.
Brasil gelado, mas não glacial
Durante a fase final do Pleistoceno (de 2,6 milhões a 11,7 mil anos atrás), o clima brasileiro era mais seco e até 6 °C mais frio que hoje. Florestas eram ralas e gramíneas dominavam extensas planícies, atraindo megafauna nômade em busca de água. Nos bebedouros naturais, formavam-se emboscadas perfeitas para superpredadores como onças e tigres-dente-de-sabre.
Preguiça de 1 t e “lhama” com tromba
Preguiça-gigante – Chegava a 1 000 kg e tinha garras de mais de 30 cm. Andava parcialmente ereta para acessar folhas altas, mas virava alvo fácil ao se abaixar para beber.
Xenorhinotherium – Herbívoro de cerca de 400 kg, corpo lembrando uma lhama gigante, porém com uma tromba curta. Espécie endêmica do Nordeste que sumiu sem deixar aparentados modernos.
Onça versus onça: batalhas fatais dentro da espécie
Além de ossos de herbívoros, pesquisadores descreveram crânios de grandes felinos do Pleistoceno perfurados pelos mesmos caninos. Ou seja, as onças não apenas caçavam megamamíferos, mas também duelavam entre si, possivelmente por território ou carcaças – comportamento que ecoa nas disputas territoriais observadas em onças atuais, porém potencializado pelo porte avantajado.
Imagem: Rodolfo Nogueira
O que muda na nossa compreensão da megafauna?
- Dieta ampliada: corrobora a tese de que superpredadores tinham cardápio variado, essencial para sobreviver em um ambiente de recursos sazonais.
- Pressão evolutiva: após a extinção da megafauna (provavelmente por mudança climática e ação humana), onças reduziram de tamanho, enquanto o dente-de-sabre desapareceu por ser mais especializado.
- Conservação moderna: entender a plasticidade alimentar de grandes felinos ajuda a projetar áreas de preservação compatíveis com suas necessidades energéticas.
Comparativo rápido: onça Pleistoceno vs. onça atual
Peso médio: 120–160 kg (moderna) | até 200 kg (Pleistoceno)
Presas principais: capivara, cateto, jacaré (moderna) | preguiça-gigante, toxodonte, cavalo-primitivo (Pleistoceno)
Competidores: humanos, onça-parda (moderna) | tigre-dente-de-sabre, lobo-guará-ancestral (Pleistoceno)
Por que isso continua relevante?
Cada novo dado sobre a cadeia alimentar pré-histórica fortalece modelos climáticos e ecológicos que usamos hoje. Se as onças conseguiram alterar dieta e porte para atravessar 11 mil anos de mudanças drásticas, proteger seus habitats atuais torna-se ainda mais urgente – afinal, a espécie já provou ser peça-chave no equilíbrio de grandes ecossistemas.
O estudo completo, intitulado “Large felids as drivers of Late Pleistocene trophic dynamics in South America”, está disponível no repositório Taylor & Francis para leitura aberta.
Com informações de Olhar Digital