Colocar um computador dentro do freezer não é exatamente novidade, mas fazer isso sem transformar a máquina em um bloco de gelo continua sendo o “Santo Graal” dos entusiastas de overclock. O australiano conhecido como TrashBench acaba de mostrar que, com criatividade, é possível rodar jogos a temperaturas polares de –28 °C usando nada além de um velho freezer horizontal, sílica gel e… um par de meias surradas.
Por que a ideia sempre falhou antes?
O grande vilão é a condensação: quando o ar úmido entra em contato com superfícies geladas, vira gotículas que corroem placas, curtos-circuitam trilhas e decretam o fim prematuro dos componentes. Até hoje, a solução mais comum era recobrir tudo com verniz ou usar selantes dielétricos — processos caros, trabalhosos e nada práticos para o usuário doméstico.
A sacada de pendurar o hardware e usar meias como desumidificador
Em vez de apoiar placa-mãe e placa de vídeo nas prateleiras metálicas, TrashBench pendurou cada peça no ar usando tiras flexíveis, reduzindo pontos de contato frios onde o vapor d’água viraria água líquida. No fundo do freezer, ele espalhou pacotes de sílica gel dentro de meias de algodão furadas. O tecido funciona como um “saco respirável” que aumenta a área de contato do dessecante com o ar, acelerando a absorção da umidade.
Configuração escolhida: hardware antigo por cálculo, não por acaso
Para o experimento, nada de RTX 4090 nem Intel Core i9 de 14ª geração. O modder usou:
- Placa-mãe ASUS ROG Maximus XI Apex
- Intel Core i7-9700KF
- GeForce GTX 1070 (em alguns momentos o software detectou GTX 1060, erro que ele atribui à “cerveja gelada”)
- Cooler a ar Thermalright Phantom Spirit
- 16 GB de memória G.SKILL Trident Z RGB
- Fonte SilverStone Strider 750 EF — mantida fora do freezer
A escolha por peças de 2016 ≈ 2018 foi pragmática: menor consumo (logo, menos calor para o compressor dissipar) e custo de reposição bem mais baixo caso tudo desse errado. Para termos uma ideia, uma RTX 4090 pode sugar até 600 W sozinha, algo que praticamente anularia o efeito térmico do freezer convencional.
Resultados de desempenho: números frios, ganhos modestos
TrashBench testou três cenários: clocks de fábrica fora do freezer, clocks de fábrica a –28 °C e overclock manual da GPU dentro do freezer.
- Somente a baixa temperatura rendeu um ganho sustentado de 51 MHz no clock da GTX 1070 — variação dentro da margem de estabilidade, mas quase imperceptível em FPS.
- Com overclock de +240 MHz no core, os resultados melhoraram um pouco:
- Shadow of the Tomb Raider: 102 FPS → 110 FPS (+8%)
- 3DMark Fire Strike: +7%
- Cyberpunk 2077 e Far Cry 6: ganhos menores e inconsistentes
Em resumo, o “gelo grátis” não compensou o esforço — algo que soluções mais simples, como um watercooler AIO de 360 mm ou um aircooler premium (ex.: Noctua NH-D15), já entregariam com muito menos risco.
Imagem: William R
Mas as peças saíram secas!
A maior vitória foi não haver uma única gota de água quando o sistema foi desligado e removido. A prova de que o método funciona veio com o termômetro marcando 9 °C nos componentes minutos depois da retirada, sem embaçamento visível.
O que aprendemos (e como isso afeta você)
• Freezers grandes têm volume de ar suficiente para absorver variações de temperatura sem cruzar tanto o ponto de orvalho.
• A desumidificação passiva com sílica gel funciona, mas requer quantidade generosa e substituição periódica.
• O ganho de performance foi discreto; para a maioria dos jogadores, investir em um bom sistema de resfriamento a ar ou água continua sendo a rota mais segura, barata e escalável — especialmente se você pretende usar GPUs de última geração, como as recém-lançadas Radeon RX 7900 XT ou GeForce RTX 4070 Ti, que já vêm preparadas para boosts automáticos em função da temperatura.
No fim das contas, o projeto de TrashBench mostra que ousadia e criatividade ainda movem a cena de modding. Mas se a sua meta é simplesmente mais FPS ou ruído reduzido, vale lembrar que há soluções prontas — de pastas térmicas de alto desempenho a watercoolers com bombas silenciosas — que entregam benefícios parecidos sem transformar a cozinha em laboratório.
Com informações de Hardware.com.br