Se você estava contando com a Black Friday para trocar de smartphone, é melhor baixar as expectativas – ou acelerar a compra. Carl Pei, CEO e cofundador da Nothing, afirmou que o preço dos celulares deve continuar subindo até, pelo menos, o ano que vem. O motivo? Uma forte escassez de memória RAM, hoje o componente mais caro de um telefone, impulsionada pela explosão de demanda em inteligência artificial (IA).
RAM passa a ser a peça que mais pesa no custo de um celular
Tradicionalmente, tela e processador disputavam o topo da planilha de custos de um smartphone. Em 2024, porém, essa lógica virou de cabeça para baixo: a memória RAM já representa mais de 50% do gasto total com hardware, segundo Pei. O executivo explica que o efeito dominó começou quando grandes data centers, fabricantes de carros autônomos e startups de IA passaram a comprar grandes volumes de DRAM e HBM (High Bandwidth Memory), esvaziando o estoque destinado a dispositivos móveis.
Nothing Phone (4a) expõe a montanha-russa de preços
Para ilustrar o cenário, Pei citou o recém-anunciado Nothing Phone (4a), intermediário que aposta em custo-benefício e já tem homologação para o mercado brasileiro. Entre a fase de concepção do produto e o lançamento, o preço dos chips de RAM dobrou. Depois que o aparelho chegou às prateleiras, o valor duplicou de novo. Na prática, o custo quadruplicou em menos de 12 meses, pressionando toda a cadeia de produção.
Quanto mais memória, maior o impacto no seu bolso
O efeito é direto: modelos com 12 GB ou 16 GB de RAM ficam proporcionalmente mais caros que variantes de 6 GB ou 8 GB. Vazamentos recentes do Google Pixel 11 indicam que a gigante precisou rever a configuração padrão – cogita-se o lançamento de uma versão “econômica” com menos RAM para manter o preço agressivo.
Marcas focadas em volume, como Xiaomi e TCL, também ajustam catálogos às pressas. A Samsung, que domina o ranking de vendas no Brasil, já sinalizou até 20% de reajuste em determinados segmentos, acompanhando a curva global.
Por que a IA deu um “banho de loja” na memória RAM?
Modelos de linguagem generativa (semelhantes ao ChatGPT) e algoritmos de visão computacional exigem quantidades massivas de dados na memória de alta velocidade. Servidores de IA estão migrando para módulos HBM3 e DDR5 a todo vapor, usando o mesmo silício que abasteceria smartphones. Com oferta restrita e procura explosiva, o preço dispara. Para o consumidor final, isso significa celulares até US$ 100 (cerca de R$ 500) mais caros em comparação com a geração de 2023, segundo Pei.
Black Friday magra à vista
O CEO da Nothing adianta que varejistas terão dificuldade para oferecer descontos agressivos neste fim de ano. Mesmo com margens apertadas, fabricantes não conseguem segurar a fatura dos componentes, transferindo parte do aumento para o preço sugerido. Resultado: a temporada de promoções em 2024 deverá ser a menos generosa dos últimos anos.
Vale a pena correr para atualizar o smartphone?
Se o seu aparelho atual está no limite, a recomendação de Pei é não adiar a compra. “A melhor hora foi ontem; a segunda melhor hora é agora”, resume o executivo. Para quem pode esperar, uma estratégia de sobrevivência é optar por modelos com 6 GB ou 8 GB de RAM, que sofrem impacto menor. Outra tática é monitorar estoques remanescentes de 2023, antes que desapareçam ou reajustem.
Imagem: Wikimedia Comms
O que observar na ficha técnica antes de decidir
1. Tipo de memória: LPDDR5X entrega mais largura de banda que LPDDR4X, mas encarece o aparelho. Avalie se o ganho de desempenho justifica o extra.
2. Processador: SoCs mais novos, como Snapdragon 8s Gen 3, otimizam uso de RAM com recursos de IA on-device, reduzindo gargalos.
3. Atualizações de software: Marcas que prometem 3 a 4 anos de Android e patches mensais ajudam a prolongar a vida útil, compensando o investimento maior.
Com pressões de custo vindas de todos os lados – câmbio, logística e agora a corrida da IA pela RAM –, o consumidor deve pesar necessidades reais, tempo de uso pretendido e, claro, ficar de olho em oportunidades relâmpago. Mas já não dá para contar com aquela Black Friday de “metade do dobro do preço” para salvar o orçamento.
Com informações de Tecnoblog