Imagine instalar no seu PC uma placa de vídeo tão grande quanto um teclado TKL, com quatro processadores gráficos trabalhando em sincronia, 128 MB de memória – um luxo em 2000 – e um “tijolo” de fonte de alimentação externa só para ela. Essa era a proposta da 3dfx Voodoo 5 6000, um projeto ambicioso que nunca chegou às prateleiras, mas que segue atiçando a curiosidade de entusiastas e colecionadores até hoje.
Uma resposta desesperada à ascensão da NVIDIA
Nos anos 1990, a 3dfx dominava o mercado gamer. Mas, quando a GeForce 256 e, logo depois, a GeForce 2 começaram a ganhar terreno, a empresa decidiu apostar todas as fichas em um conceito radical: colocar quatro chips VSA-100 (Voodoo Scalable Architecture) na mesma placa, cada um a 166 MHz, com 32 MB de SDRAM dedicada.
Para efeito de comparação, a maior parte das placas topo de linha da época trazia apenas 32 MB de VRAM – hoje, uma GeForce RTX 4090 traz 24 GB, 750 vezes mais, mas essa proporção não diminui o ineditismo do projeto em plena virada do milênio.
SLI elevado à potência quatro
A 3dfx havia inventado o termo SLI (na época, Scan-Line Interleave). A Voodoo 2 usava dois chips; a Voodoo 5 5500, lançada em 2000, dobrou para dois VSA-100. A 6000 prometia quadruplicar o conceito, renderizando linhas alternadas de cada frame em alta velocidade.
Nos laboratórios, o protótipo bateu a GeForce 2 Ultra em até 42% no Quake III Arena e chegou perto da ainda inédita GeForce 3. No Unreal Tournament, o ganho passou de 70%. Além disso, o T-Buffer trazia recursos cinematográficos como motion blur e sombras suaves – um precursor dos filtros de pós-processamento que hoje vemos em títulos com ray tracing.
Três pedras no caminho (e um tombo estratégico)
1. Consumo de energia: os quatro chips exigiam 50 W dedicados, supridos por uma fonte externa batizada de Voodoo Volts. Para um PC do ano 2000, isso era um pesadelo de cabos.
2. Compatibilidade AGP: a placa operava a 3,3 V (padrão AGP 1.0), enquanto as placas-mãe mais novas já migravam para 1,5 V. Ou seja, risco de incompatibilidade – e cheiro de RMA.
3. Preço: US$ 600 na época (algo próximo de US$ 1.150 hoje). Considerando que a GeForce 2 GTS saía por menos da metade, o ticket era proibitivo.
A tudo isso somou-se a compra da STB pela 3dfx, que afastou parceiros e fez a empresa sangrar participação de mercado até ser adquirida pela própria NVIDIA em 2002. Resultado: a Voodoo 5 6000 nunca passou da fase piloto.
Raridade de colecionador: de peça de museu a investimento
Anos antes do hype de placas “Founders Edition”, cerca de 1.000 unidades protótipo da 6000 foram montadas. Hoje elas rondam casas de leilão online: em 2023, um exemplar alcançou US$ 14 mil no eBay – mais caro que montar um PC inteiro com uma RTX 4080 e um Ryzen 9 de última geração.
Imagem: William R
Ressurreição feita à mão
Em 2021, o entusiasta Anthony (nickname ZXC-64) comprou um lote de chips VSA-100, desenhou uma PCB customizada e reconstruiu a mítica Voodoo 5 6000 do zero. O canal Gamers Nexus desembolsou US$ 1.500 pela peça e confirmou: a performance replica o protótipo original, inclusive os mesmos bugs!
O que essa história ensina ao gamer de hoje?
• Multi-GPU não é solução mágica: a indústria migrou para GPUs monolíticas poderosas (RTX 40, Radeon RX 7000) porque o ganho de empilhar chips raramente compensa o custo e a complexidade, algo que a Voodoo 5 6000 provou na pele.
• Eficiência energética importa: enquanto a 6000 exigia uma fonte externa de 50 W só para ela, uma RTX 4070 moderna entrega frames quatro gerações acima consumindo perto disso no total.
• Tecnologias de imagem evoluem: o T-Buffer era visionário, mas hoje temos DLSS 3, FSR 3 e ray tracing em tempo real oferecendo qualidade de cinema sem precisar de quatro GPUs.
Para quem busca alta performance sem dor de cabeça, vale conferir as opções atuais single-GPU que já cabem em gabinetes compactos, usam cabos padrão PCIe 5.0 e vêm prontas para jogos em 4K e VR – bem mais simples que encaixar um “tijolo” de fonte extra na traseira do PC.
A Voodoo 5 6000 permanece como um lembrete de que inovação exige ousadia, mas também timing e pragmatismo. Em pleno 2024, ela segue inspirando engenheiros e apaixonados por hardware – e, de quebra, instiga aquele desejo de ter uma peça de história no setup.
Com informações de Hardware.com.br