Imagine pedir um carro autônomo por aplicativo, chegar a um estúdio de ioga, furtar algumas peças de roupa e sair tranquilamente sem nunca ser identificado. Parece roteiro de série, mas aconteceu em São Francisco: o suspeito usou um Waymo sem motorista, utilizou dados de cartão de crédito roubados e, quando a polícia solicitou as imagens internas do veículo, elas já haviam sido apagadas. O episódio, relatado pelo San Francisco Chronicle, virou folclore — mas expôs outro drama nos bastidores: a escolha (e o custo) do carro que equipa a frota da Waymo.
Enquanto a empresa expande seu serviço de robotáxi para 11 cidades americanas e planeja chegar a outras metrópoles — de Las Vegas a Tóquio —, o modelo que carrega sua tecnologia ainda é, em grande parte, o Jaguar I-PACE, um elétrico de quase US$ 70 mil, já fora de linha e repleto de sensores caros. E é exatamente aí que começam os problemas.
Por que o Jaguar I-PACE virou um peso para a Waymo
Para o usuário, a corrida autônoma custa em média US$ 20. Para a Waymo, especialistas calculam um gasto real que pode chegar a US$ 100 por viagem. O motivo? O Jaguar, mesmo comprado em lote com desconto, exige um verdadeiro laboratório sobre rodas:
- 5 módulos de lidar no teto;
- 29 câmeras distribuídas pela carroceria;
- 6 radares de longo alcance;
- Central de IA proprietária;
- Fiação reforçada e sistema de energia dedicado.
Resultado: cada unidade retrofletida sai por algo entre US$ 120 mil e US$ 200 mil. Pior: o I-PACE tem histórico de bateria pouco confiável e não há mercado de revenda para um elétrico cheio de eletrônica exclusiva. Quando a bateria degrada, o carro vira sucata de luxo — motivo pelo qual a Waymo já anunciou que seus módulos de bateria serão reutilizados como armazenamento de energia para a rede elétrica da Califórnia e do Texas.
Chega o Zeekr Ojai: o primeiro robotáxi pensado para passageiros, não para motoristas
Para virar o jogo, a Alphabet (controladora da Waymo) apresentou o Zeekr Ojai, um mini-van 100 % elétrica criada sob medida para o serviço de transporte autônomo. Produzida pela Zeekr, divisão da chinesa Geely, a plataforma traz vantagens claras sobre o Jaguar:
- Portas deslizantes “estilo elevador”, facilitando o embarque de quem tem mobilidade reduzida;
- Piso totalmente plano e degrau baixo;
- Três telas internas, portas USB-C, suportes para copo e mais espaço de bagagem;
- Apenas 23 sensores — 13 câmeras, 4 lidars e 6 radares — integrados de fábrica à Driver 6ª geração da Waymo;
- 10 mini-limpadores aquecidos e com spray, projetados para manter lentes e lidars limpos em chuva e neve;
- Baterias de recarga mais rápida e fácil manutenção.
Mesmo com menos sensores, a arquitetura é mais avançada e custaria uma fração do preço de um I-PACE adaptado, segundo fontes próximas ao projeto. O porém? O Ojai é “Made in China”.
Tarifas, proteção e política: o obstáculo de origem chinesa
Veículos fabricados na China estão sujeitos a tarifa de 100 % nos EUA, implementada em 2018. Para driblar a sobretaxa, a Zeekr envia as carrocerias sem eletrônica finalizadas em Gotemburgo, na Suécia — caracterizando “origem europeia”. As unidades chegam vazias ao centro da Waymo em Mesa, Arizona, onde recebem computadores, modems e software autônomo. O processo atende às regras do Departamento de Comércio que vetam hardware chinês em veículos conectados a partir de 2027.
A manobra, porém, não convence parte do Congresso americano, que teme a entrada massiva de carros chineses — capazes de chegar ao consumidor entre US$ 5 000 e US$ 10 000 mais baratos que modelos equivalentes de marcas norte-americanas. O clima de protecionismo colocou o Ojai em banho-maria.
Imagem: Mike Elgan C
Hyundai Ioniq 5: o plano B que vira plano A
Para não depender do impasse com a China, a Waymo fechou um acordo gigante com a Hyundai: até 2028, a montadora entregará 50 000 unidades do Ioniq 5, fabricadas na América do Norte e adaptadas com a 6ª geração do Driver em Mesa. A escolha resolve o problema regulatório, mas impõe compromissos:
- O Ioniq 5 foi projetado para motoristas humanos, não para passageiros de robotáxi;
- Exige instalação extra de sensores, elevando o custo final — projeções apontam valores próximos aos do Jaguar;
- O espaço interno e a acessibilidade não chegam ao nível do Ojai.
O que muda para o usuário (e para o mercado)
Se você sonha em viajar em um carro realmente concebido para ser autônomo — sem volante, sem pedais e com cabine pensada em conforto —, o Ojai seria a opção ideal. Ele ilustra a próxima geração de mobilidade elétrica: menos peças, manutenção simplificada e experiência de passageiro em primeiro lugar. Mas, ao menos por enquanto, a combinação de lobby, tarifas e inércia legislativa mantém o volante e os pedais como “apêndices” obrigatórios.
Para quem acompanha tecnologia, fica a lição: hardware certo + contexto regulatório certo = inovação que decola. Caso contrário, mesmo soluções superiores tecnicamente podem ficar engavetadas. É o mesmo princípio que vemos em processadores, placas de vídeo ou periféricos gamers: não basta ter o silício mais veloz; é preciso que drivers, APIs e ecossistema acompanhem.
No fim, a Waymo encara um futuro híbrido: parte da frota com Ioniq 5 “remendados”, parte com Ojai restritos a rotas-piloto e um punhado de Jaguars envelhecendo nos centros de manutenção. A era do robotáxi totalmente concebido para passageiros ainda não chegou — mas a disputa de bastidores que decide qual carro levará seu próximo pedido já está a todo vapor.
Com informações de Computerworld