Enquanto a inteligência artificial avança a passos largos, uma guerra silenciosa acontece nos bastidores da indústria de hardware: apenas cinco fabricantes concentram 90% das remessas mundiais de memória flash NAND. O dado vem da mais recente pesquisa da TrendForce e ajuda a explicar por que SSDs, cartões de memória e até smartphones ficaram (e devem continuar) mais caros.
IA puxa a fila: receita salta 83,7% em um único trimestre
De outubro a dezembro de 2025, a receita combinada de Samsung, SK Hynix, Kioxia, Micron e SanDisk disparou 83,7% em comparação com o mesmo período do ano anterior. O empurrão vem da corrida das big techs para equipar data centers de IA com SSDs de altíssima velocidade, capazes de alimentar GPUs famintas por dados.
Se você acompanha o mercado de componentes para PC, provavelmente lembra que, em 2023, havia excesso de estoque e preços em queda. O pêndulo virou. Hoje, a prioridade das fábricas asiáticas é entregar silícios de 176 camadas ou mais aos servidores corporativos, deixando o varejo com “as sobras”.
Quem é quem entre as gigantes da NAND
Confira o pódio e o quanto cada empresa faturou no último trimestre de 2025:
- Samsung – USD 13,5 bilhões (líder absoluta e com o dobro da receita do período anterior);
- SK Hynix – USD 7,5 bilhões;
- Kioxia – USD 5,96 bilhões;
- Micron – USD 5,95 bilhões;
- SanDisk (Western Digital) – USD 5,95 bilhões.
A disputa é tão acirrada que Micron e SanDisk terminaram empatadas na quarta posição, reflexo da briga por contratos com fabricantes de notebooks, consoles portáteis e placas de vídeo com memória HBM integrada.
QLC de alta densidade: mais espaço, menos chips… e preços mais salgados
O salto de demanda não vem só da IA. A adoção de NAND QLC (Quad-Level Cell) de alta densidade permite empilhar mais bits em cada célula, reduzindo o espaço físico nos racks dos data centers. Para o usuário doméstico, a tecnologia resulta em SSDs de 4 TB ou 8 TB cada vez mais comuns, mas também mais caros por causa da oferta limitada.
O que isso significa para o consumidor final?
1. SSDs NVMe PCIe 4.0 e 5.0 tendem a segurar preço alto ao longo de 2026. Se você pensa em turbinar o PC gamer ou montar um NAS caseiro, comprar antes de picos de preço pode evitar surpresas.
2. Cartões microSD de grande capacidade (512 GB ou 1 TB) também podem sentir o impacto, pois compartilham os mesmos wafers de NAND.
Imagem: William R
3. Desktops e laptops de entrada devem manter configurações básicas de 256 GB a 512 GB, já que as OEMs preferem não encarecer modelos populares.
Comparativo rápido: geração atual vs. passada
• Em 2024, SSDs SATA de 1 TB chegaram a custar abaixo de R$ 300 em promoções. Hoje, o mesmo modelo gira em torno de R$ 430–R$ 500.
• Já um SSD PCIe 5.0 de 2 TB, quase inexistente há dois anos, agora parte dos R$ 1.500 — impulsionado pelo uso de NAND de 232 camadas ou superior.
Escassez física de HDDs acelera migração
Como se não bastasse a pressão da IA, uma escassez global de discos rígidos tradicionais (HDDs) obrigou provedores de nuvem a trocar prateleiras inteiras de spinning disks por SSDs QLC, que entregam maior IOPS e consomem menos energia. A movimentação fecha o ciclo: mais demanda corporativa, menos matéria-prima para o consumidor e margens finalmente positivas para as fabricantes, que amargaram prejuízos durante a superprodução de 2022–2023.
Horizonte 2026: preços continuam no topo
A TrendForce projeta estoques apertados e valores elevados até o fim de 2026. Para quem monta ou atualiza PCs, a dica de ouro é monitorar ofertas relâmpago — especialmente em eventos como Prime Day e Black Friday — e ficar de olho em modelos com memória DRAM cache, que preservam performance mesmo em QLC.
Em resumo, o domínio das cinco gigantes não só consolida o fornecimento de memória NAND, como também redefine a régua de preços para todo o ecossistema de armazenamento — do seu smartphone ao supercomputador que treina o próximo modelo de IA.
Com informações de Hardware.com.br