A Polícia Civil do Rio de Janeiro desmontou, nesta sexta-feira (22), uma operação clandestina de mineração de criptomoedas escondida nos fundos de um mercado no Complexo do Lins, Zona Norte da capital. Para surpresa dos agentes, o galpão abrigava dezenas de máquinas equipadas com placas de vídeo de última geração, configuradas para drenar energia da rede pública 24 horas por dia — tudo a serviço da facção Comando Vermelho (CV).
Como funcionava a estrutura secreta
Segundo a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) e a 26ª DP (Todos os Santos), o “data center” improvisado exibia racks lotados de GPUs que lembram as **NVIDIA GeForce RTX 3090 e RTX 4090** — modelos que, no varejo, podem ultrapassar os R$ 10 mil cada. Ligadas em paralelo, essas placas entregam um hashrate que fascina investidores legítimos, mas também atrai criminosos dispostos a burlar a conta de luz. O consumo estimado? Fácil superar alguns centenas de quilowatts-hora por dia, energia suficiente para iluminar dezenas de residências.
O resfriamento ficava por conta de ventiladores industriais e dutos improvisados para expulsar o ar quente, prática comum em “mines” ilegais que ignoram normas de segurança elétrica e risco de incêndio. Toda a fiação estava ligada antes do relógio da concessionária, eliminando custo operacional e, naturalmente, inflando o lucro das carteiras digitais do grupo.
Por que as facções migram para criptomoedas?
A mineração é o processo que valida transações na blockchain. Ao resolver cálculos criptográficos, o minerador recebe frações de moedas digitais, cada vez mais valorizadas e, principalmente, difíceis de rastrear. Para organizações como o CV, o negócio oferece três vantagens-chave:
- Baixo risco de transporte físico de valores (tudo é digital);
- Facilidade de conversão em dólares ou stablecoins fora do país;
- Diversificação de receita paralela ao tráfico e a golpes bancários.
Detalhes da operação: 10 presos e um “call center” de golpe bancário
Os mandados cumpridos resultaram na prisão de 10 suspeitos, entre eles Emanuel dos Santos Carvalho, conhecido como “Mata Rindo”, apontado como articulador financeiro do CV na região. Além das GPUs, a ação confiscou armas, drogas e celulares usados em um esquema de falsa central telefônica que arrancava credenciais bancárias de vítimas em todo o país.
O impacto prático para quem monta (ou quer montar) um PC gamer
Se você vem acompanhando a escalada dos preços de placas de vídeo, eis um dos motivos: a demanda criminosa também disputa estoque com gamers e criadores de conteúdo. Modelos como a RTX 4070 Ti ou a Radeon RX 7900 XTX oferecem excelente desempenho em jogos AAA, mas seu poder de processamento torna-as igualmente cobiçadas em fazendas de mineração. Cada GPU desviada para esse mercado clandestino pressiona a oferta no varejo — e, consequentemente, o preço no Amazon Brasil.
No cenário atual, a boa notícia é que o mergulho das cotações de moedas como Ethereum pós-“The Merge” diminuiu a rentabilidade da mineração com GPU, devolvendo um pouco de fôlego ao consumidor comum. Ainda assim, operações criminosas que não pagam energia continuam lucrativas, justificando apreensões como a de hoje.
Imagem: William R
Brasil já acumula casos semelhantes
Não foi um fato isolado. Em janeiro de 2026, a Polícia Civil de Alagoas fechou quatro fazendas clandestinas que consumiam 200 mil kWh por mês — o suficiente para mil residências. Já em junho de 2024, um casal foi preso em Canela (RS) com equipamentos avaliados em meio milhão de reais e fraude elétrica estimada em R$ 1,5 milhão.
O que observar daqui para frente
Para as autoridades, o desafio é rastrear criptos convertidas em bens físicos; para o usuário doméstico, a lição é clara: se o seu projeto é investir em um novo setup com hardware de ponta, acompanhe a disponibilidade e certificações das lojas oficiais. A cadeia de suprimentos deve ficar ainda mais vigiada após a operação no Complexo do Lins, mas eventuais flutuações de estoque continuam no radar — sobretudo em peças de alto hashrate.
No fim das contas, a queda da “super fazenda” do CV reforça a máxima de que alta performance exige alta energia — e a conta chega. Se for legítima, vem na fatura de luz; se for criminosa, termina em cabo de aço e mandado de prisão.
Com informações de Hardware.com.br