Elon Musk está prestes a levar a SpaceX à bolsa, mas, diferentemente do que se vê em boa parte das gigantes de tecnologia, o bilionário manterá um poder quase monárquico sobre a companhia mesmo após o toque do sino em Wall Street. Os documentos do IPO, revelados nesta quarta-feira (21), mostram que Musk seguirá acumulando os cargos de CEO, CTO e presidente do conselho, além de conservar mais de 50% do poder de voto. Em outras palavras: quem comprar ações da SpaceX terá participação no foguete, mas o manche continuará firmemente nas mãos de Musk.
Dupla classe de ações: lição aprendida com Google, Meta e Roblox
A SpaceX adotará um modelo de ações de classe dupla, estratégia popular entre empresas de tecnologia que desejam captar bilhões sem abrir mão da autonomia criativa. A Alphabet (Google), a Meta e a Roblox já trilharam caminho parecido, mantendo supervoto na mão dos fundadores. No caso da SpaceX, Musk deterá 93,6% das ações Classe B, que garantem até 10 votos por papel, enquanto os investidores públicos ficarão com os papéis Classe A, com direito a um voto cada.
O que isso significa para o investidor comum?
Na prática, o investidor que adquirir SpaceX vai apostar no sucesso do projeto Starship, na expansão do Starlink e na ambiciosa colonização de Marte — mas não terá poder para contestar decisões estratégicas, fusões ou pacotes salariais do alto escalão. A própria SpaceX reconhece, no prospecto, que essa estrutura “limitará ou impedirá a capacidade dos acionistas de influenciar assuntos corporativos”.
Texas, tribunais e blindagem jurídica
Musk também transferiu a incorporação da SpaceX para o Texas, estado que vem se posicionando como novo polo corporativo graças a regulações mais favoráveis. O estatuto da companhia estabelece que só acionistas com pelo menos 3% do capital (algo em torno de US$ 52 bilhões na avaliação estimada de US$ 1,75 trilhão) poderão abrir processos derivativos. Além disso, a maioria das disputas precisará passar pela recém-criada Corte Empresarial do Texas ou arbitragem privada — um escudo extra contra litígios públicos que costumam consumir tempo e dinheiro das big techs.
Comparação com a Tesla: o contraste de governança
É impossível não comparar as duas joias da coroa de Musk. Na Tesla, o executivo detém cerca de 20% dos votos e, por isso, depende do apoio de outros acionistas para aprovar bônus bilionários ou mudanças estratégicas, cenário que gerou embates jurídicos recentes em Delaware. Já na SpaceX, a superclasse de ações e a presidência do conselho dão a Musk carta branca para avançar em aquisições ou mesmo em uma eventual fusão — especulação que ronda o mercado desde que ele citou sinergias entre a maker de foguetes e a montadora elétrica.
Entrada acelerada no Nasdaq-100: pressão compradora à vista
Outro ponto potencialmente lucrativo para quem pretende girar carteira: a Nasdaq flexibilizou suas regras para que a SpaceX seja incluída no índice Nasdaq 100 em semanas, e não meses. Quando isso ocorrer, fundos passivos que replicam o benchmark serão obrigados a comprar as ações, adicionando combustível para o preço no curto prazo. Para o pequeno investidor, isso pode significar volatilidade extra — e oportunidade, caso o timing seja preciso.
Imagem: Findaview
Pacote de 1 bilhão de ações e a corrida a Marte
O prospecto também revela um “bônus interplanetário”: Musk receberá 1 bilhão de ações Classe B adicionais se a SpaceX atingir US$ 7,5 trilhões de valor de mercado e estabelecer uma colônia permanente de 1 milhão de habitantes em Marte. Embora pareça ficção científica, o detalhe importante para o mercado financeiro é que Musk poderá usar esses papéis como garantia de empréstimos ou votá-los mesmo antes de o objetivo marciano ser alcançado — criando, na prática, uma linha de crédito bilionária pré-aprovada.
O que vem agora
Com a documentação pública, analistas estimam que a abertura de capital aconteça no segundo semestre. Se confirmada a avaliação de US$ 1,75 trilhão, a operação pode superar o recorde atual do Ant Group (US$ 34 bilhões, suspenso em 2020). Para quem acompanha de perto o ecossistema de tecnologia — de GPUs que renderizam mundos virtuais a processadores que dão vida a satélites Starlink — o IPO da SpaceX não é apenas um evento de mercado; é um marco de engenharia e ambição que pode redefinir o fluxo de capital para inovações aeroespaciais na próxima década.
No final das contas, comprar SpaceX será, acima de tudo, confiar que Elon Musk sabe exatamente onde quer pousar — seja na Lua do mercado financeiro, seja no solo vermelho de Marte.
Com informações de Olhar Digital