A Microsoft reformulou o Windows Recall antes de relançá-lo em abril de 2025, mas a promessa de blindagem contra malware já caiu por terra. O pesquisador Alexander Hagenah, da SIX Group, provou que um código malicioso rodando com privilégios de usuário comum ainda consegue sugar todo o histórico capturado pelo Recall — sem precisar de permissões de administrador, exploits de kernel ou quebra de criptografia.
O que é o Windows Recall — e por que ele é exclusivo dos Copilot+ PCs
Apresentado como um “superpoder de memória” para o Windows 11, o Recall registra trechos da sua tela periodicamente, indexa o conteúdo via IA e permite que você pesquise qualquer coisa que já tenha visto no computador. O recurso só é ativado em Copilot+ PCs, categoria inaugurada pelos novos notebooks com processadores ARM Snapdragon X Elite/Plus e unidades de processamento neural (NPU) dedicadas, capazes de 40 TOPS ou mais.
Para quem está avaliando um upgrade de hardware, esses laptops prometem bateria de sobra e aceleração local de IA, mas a polêmica em torno da privacidade pode influenciar sua decisão de compra.
Como o ataque funciona na prática
Hagenah publicou no LinkedIn a ferramenta TotalRecall Reloaded, um código de prova de conceito que “mantém a porta aberta” toda vez que o usuário faz uma consulta no Recall. O utilitário captura silenciosamente todas as imagens e textos que o Recall já desencriptou para exibir na tela, salvando o material em outro local.
Diferente de ataques sofisticados que exploram vulnerabilidades de kernel, a técnica só precisa rodar no mesmo contexto do usuário. Isso reduz a barreira de entrada para cibercriminosos em cenários de espionagem corporativa ou campanhas direcionadas contra executivos, jornalistas e desenvolvedores.
Onde está o elo fraco?
A criptografia usada pelo Recall permanece intacta. O problema é o processo AIXHost.exe, responsável por exibir a linha do tempo de snapshots. Assim que os dados saem do enclave seguro e viram “texto puro” nesse processo, qualquer outro programa do mesmo usuário pode injetar código e copiá-los.
Segundo Hagenah, bastaria a Microsoft aplicar políticas de integridade de código e isolamento de processo mais rígidas ao AIXHost.exe para bloquear o método atual. Para uma solução definitiva, o pesquisador sugere renderizar o conteúdo dentro de um processo protegido ou adotar um modelo de composição em que as imagens descriptografadas nunca cruzem a fronteira de confiança.
O posicionamento (ou a falta dele) da Microsoft
O caso foi reportado ao Microsoft Security Response Center em 6 de março, com código-fonte e passos para reprodução. A equipe de Redmond revisou o material por um mês e encerrou o ticket em 3 de abril, alegando que “o comportamento não representa violação de limite de segurança nem acesso não autorizado”.
Para Hagenah, esse é o ponto mais alarmante: “A Microsoft diz que é by design — e isso me preocupa”. Até o fechamento deste artigo, a empresa não se pronunciou publicamente.
Imagem: Gyana Swain
Risco real ou tempestade em copo d’água?
Limitar o Recall aos Copilot+ PCs e exigir ativação manual reduz a superfície de ataque em massa. No entanto, em cenários de abuso direcionado — espionagem, monitoramento interno ou roubo de propriedade intelectual —, o exploit é viável hoje mesmo. O pesquisador independente Kevin Beaumont chegou ao mesmo resultado de forma autônoma: “Você pode simplesmente ler o banco de dados como um processo de usuário. Nenhum antivírus disparou alerta”, postou no Mastodon.
Como se proteger agora (enquanto a correção não vem)
1. Desative o Recall se o recurso não for essencial para o seu fluxo de trabalho.
2. Mantenha seu EDR/antivírus atualizado; alguns fornecedores já desenvolvem assinaturas baseadas no código aberto do TotalRecall Reloaded.
3. Restrinja instalações desconhecidas. O ataque depende de software rodando no seu perfil.
4. Para equipes de TI, implemente políticas de Application Control (Windows Defender Application Control, AppLocker) que impeçam executáveis não assinados de serem executados.
Vale a pena investir em um Copilot+ PC agora?
Para gamers e criadores de conteúdo, a plataforma ARM com NPU integrada compete diretamente com ultrabooks Intel Core Ultra (antes Meteor Lake) e aguarda a chegada dos AMD Strix Point. Na prática, o Recall é só um entre vários recursos de IA — como legendas multilíngues em tempo real e remoção de ruído em vídeo — que podem justificar o upgrade.
No entanto, se a captura contínua de tela e as questões de privacidade pesarem contra, você pode optar por modelos equivalentes sem o Recall ativado ou aguardar um patch mais robusto. Afinal, investir em GPU dedicada, SSD PCIe 4.0 e um bom mouse para produtividade pode trazer ganhos imediatos de performance, sem expor seus dados.
Em resumo, a falha não quebra a criptografia, mas expõe que a proteção termina cedo demais no pipeline do Recall. Se você pensa em comprar um notebook com a nova geração de hardware da Microsoft, coloque a segurança na balança e acompanhe as atualizações — seu histórico de trabalho (e de jogatina) agradece.
Com informações de Computerworld/CSO