Uma prática criminosa silenciosa e tecnológica vem avançando pelos corredores escolares do mundo inteiro. Desde 2023, ao menos 600 estudantes de cerca de 90 instituições em 28 países tiveram suas imagens manipuladas por apps de “nudificação” que geram deepfakes sexuais. O Brasil não ficou de fora: há 16 registros oficiais distribuídos em 10 estados, segundo a ONG SaferNet.
Como o golpe funciona em segundos
O método é quase sempre o mesmo: um colega baixa uma foto comum do Instagram, Snapchat ou até do anuário escolar, faz o upload em um aplicativo que “remove” digitalmente as roupas e, em minutos, a montagem explícita já circula em grupos de WhatsApp ou Telegram da turma. A barreira técnica que antes protegia vítimas desse tipo de abuso simplesmente desapareceu graças à IA generativa.
Da curiosidade à vingança: por que adolescentes fazem isso?
Pesquisas citadas pela UNICEF e pelo Save the Children apontam que a motivação varia entre curiosidade, desafios entre amigos e vingança—o famoso “expor” digital. Em quase todos os casos mapeados pelas revistas WIRED e Indicator, os criadores das imagens eram meninos menores de 18 anos.
Impacto psicológico devastador
Para as vítimas, o trauma vai além das salas de aula. Jovens relatam medo de voltar à escola, crises de ansiedade e a sensação de que “a internet nunca esquece”. Advogados nos EUA descrevem casos em que as famílias passaram a monitorar redes sociais 24 horas por dia, temendo novos vazamentos.
Brasil: casos em 10 estados e pouca resposta oficial
No país, a SaferNet contabiliza casos em Alagoas, Bahia, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Houve ainda episódios não noticiados no Rio de Janeiro e no Distrito Federal. O padrão se repete: grupos de alunos, majoritariamente de escolas particulares, trocam deepfakes e até vendem as montagens por valores que chegam a R$ 50.
Leis e punições ainda engatinham
Enquanto Reino Unido e União Europeia discutem banir apps de “undress”, os Estados Unidos aprovaram o Take It Down Act, obrigando plataformas a remover conteúdo íntimo não consensual em até 48 horas. No Brasil, não há monitoramento oficial nem legislação específica, mas o STJ já enquadra o ato como pornografia infantil quando envolve menores.
Imagem: Internet
Existe alguma proteção tecnológica?
Ferramentas de detecção de deepfake começam a surgir—e algumas já estão disponíveis na Amazon em formato de software como serviço (SaaS). Soluções como a Microsoft Azure Face API e o Deepware Scanner prometem identificar manipulações em imagens e vídeos. Para famílias e escolas, antivírus com módulos de privacidade, como o Kaspersky Premium, podem ajudar a rastrear tentativas de compartilhamento não autorizado em dispositivos.
Dicas rápidas para pais, responsáveis e escolas
- Mantenha perfis de menores em modo privado e evite fotos de corpo inteiro.
- Oriente jovens a nunca compartilhar imagens íntimas—even as consideradas “inofensivas”.
- Instale filtros de conteúdo e monitore grupos de mensagens suspeitos.
- Em caso de incidente, registre provas (prints, links) e procure a polícia especializada.
Enquanto a tecnologia avança, especialistas concordam: a melhor defesa ainda é a informação. Conhecer os riscos e agir rapidamente pode fazer a diferença entre conter um vazamento e ver uma imagem falsa se perpetuar pela internet.
Com informações de TecMundo