Em março de 2006, muito antes de falarmos em Ray Tracing em tempo real ou placas de vídeo da série RTX, a Coca-Cola balançou o mundo gamer com um comercial de 59 segundos que parecia ter saído direto de Grand Theft Auto: San Andreas. Batizado simplesmente de “Video Game”, o filme publicitário fazia tudo aquilo que os fãs reconheciam em GTA — câmera em terceira pessoa, mini-map no canto da tela e carros correndo em alta velocidade — mas subvertia a lógica: em vez de caos e violência, o protagonista distribuía gentileza depois de um gole gelado de Coca-Cola.
Por que a Coca-Cola decidiu “hackear” GTA?
Três anos antes, um estudo interno chamado The Big Dig acendeu um alerta na companhia: os consumidores ainda amavam a marca, mas ela não estava mais no topo da mente das pessoas. Entre 2001 e 2006, as vendas nos EUA caíam de forma consistente, pressionadas pela preocupação com saúde e açúcar. Para reverter a maré, surgiu o time de Creative Excellence, liderado por Pio Schunker, com a missão clara de tornar a marca culturalmente relevante para uma nova geração.
Em 2006, GTA era o epicentro da cultura pop gamer. O mundo ainda digeria o estrondoso sucesso de San Andreas, enquanto a Rockstar aquecia a próxima bomba, Grand Theft Auto IV, anunciada para o ano seguinte. Aproveitar esse “hype” era quase obrigatório para qualquer marca que quisesse falar com jovens adultos.
A fórmula mágica: simplicidade + bondade
Depois de ouvir um sonoro “você precisa voltar ao que a Coca representa: simplicidade e bondade” de Dan Wieden (fundador da Wieden+Kennedy), Schunker comprou a ideia. Surgia a campanha global The Coke Side of Life, e o comercial Video Game virou a peça-chave de lançamento.
No roteiro, o personagem Ray abandona o veículo, compra uma garrafa de Coca-Cola e, em vez de sair “farmando estrelas de procurado”, distribui favores: paga o saxofonista de rua, devolve pertences roubados e termina erguido pela multidão em clima de musical, embalado pela canção Give a Little Love, de Paul Williams.
Full HD antes do Full HD ser moda
Nos bastidores, o comercial não era apenas uma homenagem visual, mas uma demonstração tecnológica. Segundo o artista 3D Matt Clark, responsável pela modelagem e texturas, o projeto foi um dos primeiros trabalhos publicitários em 1080p full HD. Lembre-se: em 2006, o PlayStation 3 nem havia chegado às lojas (o console desembarcaria em novembro daquele ano), e PCs gamers top de linha rodavam placas como a NVIDIA GeForce 7900 GT ou a ATI Radeon X1900 XT. Ver aquele nível de detalhe em uma peça para TV era, literalmente, “coisa de nova geração”.
Para a famosa cena musical no fim, a equipe trabalhou com coreógrafos reais, mapeando movimentos que, na época, exigiam captura de vídeo de referência e animação quadro a quadro — nada do conforto dos sensores de movimento acessíveis que estúdios pequenos usam hoje. O resultado? Um visual que parecia gameplay, mas tão polido quanto cutscenes pré-renderizadas.
Imagem: William R
Impacto e legado: de Cannes ao YouTube
O anúncio rendeu um Leão de Ouro em Cannes e continua a aparecer em listas de “melhores comerciais de todos os tempos”. Para muitos jogadores, foi o primeiro contato com a ideia de que um jogo — ou, no caso, sua estética — poderia ser usado para transmitir uma mensagem positiva. Em tempos de discussões sobre violência nos games, a Coca-Cola mostrou que o contexto é tudo.
Hoje, a relação entre marcas e universos virtuais amadureceu: vimos Fortnite virar palco de shows ao vivo e parcerias entre fabricantes de hardware e estúdios de jogos para bundles promocionais. Mas lá em 2006, “Video Game” abriu caminho, provando que falar a linguagem dos gamers — seja usando gráficos de ponta ou referências culturais — pode ser tão refrescante quanto uma Coca gelada.
O que significa para você, jogador em 2024?
Se, na época, o comercial impressionou com “gráficos de PC” superiores aos consoles, hoje qualquer setup intermediário com uma GeForce RTX 3060 ou uma Radeon RX 7600 consegue rodar GTA V (e em breve GTA VI) com taxas de quadros altíssimas em 1440p — resolução impensável para uma propaganda de TV em 2006. A evolução do hardware transformou o que antes era ficção publicitária em experiência real de jogo. E a lição permanece: tecnologia é ferramenta; a diferença está em como você a usa.
E você, lembrava desse comercial? Reassistir hoje — disponível em full HD no YouTube — é uma verdadeira máquina do tempo para uma era em que HD era luxo e gentileza virava manchete.
Com informações de Hardware.com.br