A busca pela soberania tecnológica na União Europeia acaba de ganhar um capítulo de peso. A Direção Interministerial do Digital (DINUM), braço de transformação digital do governo francês, confirmou que planeja substituir o Windows por um sistema operacional Linux em milhares de estações de trabalho estatais. A medida não mira apenas o sistema da Microsoft: cada ministério deverá apresentar, ainda neste ano, um roteiro para cortar a dependência de fornecedores norte-americanos em áreas como colaboração on-line, antivírus, inteligência artificial, bancos de dados, virtualização e até equipamentos de rede.
Por que a mudança agora?
O movimento acontece em meio a um clima geopolítico de tensão entre Estados Unidos e União Europeia. Questões de privacidade de dados, custos de licenciamento e até eventuais restrições de exportação fizeram Paris acelerar a adoção de soluções open source e, preferencialmente, desenvolvidas no bloco europeu. Vale lembrar que, no ano passado, o governo já havia trocado Zoom e Microsoft Teams pela plataforma francesa de videoconferência Visio.
Linux x Windows: o que o governo francês leva em consideração?
Para uso corporativo, o Linux oferece vantagens competitivas:
- Custo de licenças: distribuições como Ubuntu, Debian ou o francês Mageia podem ser usadas sem taxas de licenciamento por máquina.
- Segurança e controle: código aberto facilita auditorias de segurança, crucial em órgãos com dados sensíveis.
- Personalização: governos podem criar versões próprias – algo que a Alemanha fez com o “LiMux” e a China com o “Kylin”.
- Baixo consumo de recursos: hardware mais antigo segue útil, reduzindo gastos em upgrades massivos de PCs.
Impacto prático para o servidor público (e para você)
Na estação de trabalho, a troca para Linux significa uma nova interface (KDE, GNOME ou XFCE) e o pacote de produtividade LibreOffice no lugar do Microsoft Office. Porém, navegadores como Firefox e Chrome funcionam da mesma forma. Para quem joga em casa, o Steam tem avançado com o Proton, camada de compatibilidade que já roda sucessos como Elden Ring e Cyberpunk 2077 no pinguim.
E os periféricos e peças de hardware?
A compatibilidade de drivers melhorou muito. Teclados mecânicos, mouses gamer e webcams populares de marcas como Logitech, Corsair e Razer contam com suporte comunitário ou oficial. Placas de vídeo AMD e NVIDIA também oferecem drivers proprietários atualizados para Linux, garantindo desempenho em jogos e aplicativos 3D.
Antes de trocar de SO (ou de comprar novo hardware), vale checar no site do fabricante se há pacote .deb ou .rpm disponível. A boa notícia: itens vendidos na Amazon, como SSDs NVMe ou placas-mãe B550, raramente exigem configuração adicional para rodar em Linux moderno.
Imagem: Mikael Markander
Próximos passos do plano francês
Cada ministério francês terá até o outono europeu para apresentar seu plano detalhado. A DINUM, então, consolidará metas de curto, médio e longo prazo. O cronograma inclui:
- Levantamento de softwares críticos que ainda dependem de Windows;
- Treinamento de servidores públicos em distribuições Linux;
- Criação de repositórios internos para pacotes validados;
- Adoção de certificações de segurança específicas para softwares europeus.
Se bem-sucedida, a iniciativa pode servir de roteiro para outros países do bloco, pressionando grandes vendors a oferecer contratos mais transparentes — e abrindo caminho para fabricantes de hardware otimizarem cada vez mais seus drivers para Linux.
Para o consumidor final, o recado é claro: o universo open source não é mais território exclusivo de entusiastas. Seja em um notebook de entrada ou em um desktop gamer potente montado com peças compradas on-line, a tendência é que a compatibilidade e o suporte só melhorem daqui em diante.
Com informações de Computerworld