O empresário Travis Kalanick, cofundador e ex-CEO da Uber, rompeu oito anos de silêncio para apresentar a Atoms, uma nova companhia dedicada a construir robôs industriais modulares para alimentação, mineração e logística. A revelação ocorreu no programa TBPN Tech Talk Show na última sexta-feira (13) e marca a transição da discreta holding City Storage Systems — avaliada em cerca de US$ 15 bilhões — para um modelo de negócios calcado em automação pesada.
Uma “wheelbase” para robôs: o que isso significa?
Segundo Kalanick, a Atoms está desenvolvendo uma wheelbase — conceito inspirado na indústria automotiva — que reúne chassi, bateria, poder de computação e sensores em um bloco padronizado. A partir daí, cada divisão encaixa módulos especializados, criando robôs distintos sem reinventar a estrutura central. É a mesma lógica que permite à Volkswagen produzir SUVs, sedãs e elétricos sobre a plataforma MQB: escala e velocidade de produção.
Três frentes de ataque
A companhia estreia com unidades independentes:
- Atoms Food – já nasce com o Bowl Builder, robô que monta refeições em “dark kitchens”, usando tecnologia desenvolvida no Lab37 de Pittsburgh. O laboratório é liderado por Eric Meyhofer, ex-chefe da divisão autônoma da Uber e professor da Carnegie Mellon, instituição que formou boa parte da elite mundial em robótica.
- Atoms Mining – foca em máquinas capazes de trabalhar em minas e pedreiras, ambientes onde poeira, vibração e risco humano elevam custos. Para acelerar, Kalanick confirmou negociações para comprar a Pronto AI, startup de veículos autônomos criada por Anthony Levandowski.
- Atoms Transport – plataforma elétrica e autônoma dedicada a cargas de pequeno e médio porte, mirando armazéns, centros de distribuição e, no futuro, hubs urbanos de entrega.
Por que importa para quem vive (ou investe) em tecnologia?
1. Pressão por eficiência: dark kitchens já operam com margens finíssimas. Automatizar preparo de alimentos reduz erros, desperdício e custo de mão de obra, algo que pode ecoar para cafeterias e redes de fast-food que você frequenta.
2. Segurança em mineração: a combinação de autonomia e sensores LIDAR pode cortar acidentes em minas subterrâneas, um mercado global de US$ 3,6 trilhões segundo a McKinsey.
3. Logística sem motoristas: se a Atoms entregar o que promete, hubs de e-commerce (inclusive da Amazon) ganharão um “exército” modular para mover pacotes 24/7. Indiretamente, isso tende a acelerar prazos de entrega para o consumidor final — e mexer até no valor do frete grátis que você vê na tela.
Concorrência no radar
A aposta de Kalanick esbarra em players como Boston Dynamics (robô Spot para inspeções industriais) e Miso Robotics (robô Flippy para lanchonetes). A diferença é o enfoque em plataforma única: enquanto concorrentes vendem soluções pontuais, a Atoms quer escalar como a Foxconn dos robôs — produzindo em massa, para diversos mercados, com peças comuns.
Imagem: Internet
Kalanick & Levandowski: parceria de alto risco, alto retorno
A recompra de sinergia entre os dois executivos reacende polêmicas. Levandowski foi perdoado por Donald Trump após condenação por suposto roubo de segredos do Google. Mesmo assim, ele é referência técnica em veículos autônomos confinados (canaviais, portos, minas). Para investidores, é um “atalho” para colocar a Atoms Mining na frente da Caterpillar e da Komatsu, que também testam caminhões robotizados.
Qual o próximo passo?
Kalanick afirmou que os primeiros pilotos comerciais começam ainda em 2025. Se repetir o ritmo da Uber nos primeiros anos, analistas esperam que a Atoms busque rodadas de capital robustas ou até um IPO em menos de quatro anos. E, embora a empresa não fabrique gadgets de consumo hoje, a engenharia modular por trás da wheelbase pode migrar para robôs domésticos — como aspiradores ou ajudantes de cozinha — que já despontam como a próxima febre de vendas na Amazon.
Com a Atoms, Kalanick aposta que automatizar o “mundo físico” será tão transformador quanto digitalizar corridas de táxi. Resta saber se a nova startup terá a mesma disrupção — e o mesmo nível de controvérsia — que marcou a história da Uber.
Com informações de Mundo Conectado