Se você estava contando os dias para montar um novo desktop gamer ou renovar o notebook do trabalho, é melhor rever o cronograma — e o orçamento. Relatórios das consultorias Gartner e IDC indicam que a falta de chips de memória DRAM e NAND deve derrubar as vendas de PCs e smartphones em mais de 10% até 2026, enquanto os preços dos equipamentos sobem na mesma velocidade que a demanda dos data centers de IA das big techs.
O que está acontecendo com os chips de memória?
Desde 2023, gigantes como Microsoft, Google, Amazon e Meta investem pesado em data centers voltados a inteligência artificial generativa. Para alimentar modelos de linguagem cada vez maiores, essas empresas estão comprando antecipadamente grande parte da produção mundial de DRAM (usada como RAM) e de NAND (armazenamento SSD).
Resultado: sobra menos memória para fabricantes de PCs e smartphones. A Gartner projeta um salto de até 130% no preço dos chips em 2026. É a maior alta anual já estimada desde o famoso “DRAM crunch” de 2017, que fez kits DDR4 dispararem de preço no varejo.
Previsão de queda de vendas — e de aumento de preço
- PCs: remessas globais devem encolher 10,4% (Gartner) a 11,3% (IDC) em 2026 versus 2025.
- Smartphones: retração de 8,4% (Gartner) a 12,9% (IDC) no mesmo intervalo.
- Preço final dos PCs: alta média de 17% em 2026, puxada pelo peso maior da memória no custo de produção (23% contra 16% em 2025).
Para quem acompanha o mercado de hardware, vale lembrar que a margem dos fabricantes já vinha apertada pela cotação elevada de GPUs e pela recuperação pós-pandemia. A HP, por exemplo, revelou que a memória saltou de 15–18% para 35% do custo total de cada PC apenas no último trimestre fiscal.
Grandes marcas resistem; pequenos fabricantes sofrem
Marcas globais como Dell, Lenovo, Apple e a própria HP têm contratos robustos com fornecedores e maior poder de barganha. Mesmo assim, não escapam de repassar parte da alta ao consumidor. Fabricantes menores ou locais, que operam com margens muito finas, correm risco de consolidação — ou seja, podem ser comprados ou sair do mercado.
Efeito dominó nas empresas: ciclos de upgrade mais longos
No mundo corporativo, a conta não fecha tão facilmente. Segundo a Gartner, os ciclos de renovação de PCs nas empresas devem ficar 15% mais longos em 2026. Quem migrou para o Windows 11 em máquinas antigas corre o risco de ficar preso em hardwares sem fôlego para futuras funções do sistema — especialmente os recursos de IA local que a Microsoft promete embarcar em futuras atualizações.
AI PCs: continuar comprando, mas com menos RAM?
A própria Gartner admite que as organizações vão seguir investindo em máquinas classificadas como “AI PCs” (equipamentos com NPUs dedicadas a tarefas de inteligência artificial), porém em ritmo mais lento e, possivelmente, com capacidades de memória reduzidas para caber no orçamento. Isso pode ter reflexos diretos em desempenho de software de criação, análise de dados e jogos que já começam a explorar inferências locais.
Imagem: Matthew Finnegan
Consumidor final: comprar agora ou esperar?
Tem upgrade na lista? Os analistas são categóricos: ou você compra já, ou segura até que os preços estabilizem — algo que pode levar ao menos até o fim de 2027. Para ajudar na decisão, considere os cenários:
- Quem joga e edita vídeo: aplicações que consomem muita RAM vão sentir primeiro. Se achar um kit DDR5 ou DDR4 em promoção, pode ser hora de garantir.
- Trabalho híbrido ou home office: a falta de memória impacta menos que uma boa CPU ou GPU integrada. Avalie se o ganho real justifica o gasto extra.
- Smartphones topo de linha: modelos premium tendem a manter 8 GB, 12 GB ou 16 GB de RAM, mas com preço corrigido para cima. Linhas intermediárias podem voltar a 6 GB.
Comparativo rápido: DRAM de hoje x DRAM de 2021
Em 2021, um kit DDR4-3200 de 16 GB custava cerca de R$ 400 em promoções na Amazon Brasil. Em 2024, o mesmo kit beira R$ 500–550. Se a projeção de 130% se confirmar, poderemos ver valores próximos de R$ 900 a R$ 1.000 para a mesma capacidade em 2026, sem contar a transição natural para DDR5, que já é mais cara.
Dicas rápidas para driblar a maré alta
- Fique de olho em ofertas-relâmpago — Prime Day e Black Friday costumam trazer descontos agressivos por tempo limitado.
- Compre em pares ou kits para garantir compatibilidade e evitar preços ainda maiores no futuro.
- Avalie upgrades graduais: talvez trocar apenas SSD ou GPU agora e deixar a RAM para depois seja mais inteligente.
- Não subestime notebooks com slot extra de memória: você pode comprar o modelo mais básico e adicionar RAM antes que o custo dispare.
Independentemente do caminho escolhido, o alerta está dado: a escassez de memória mudou a curva de preços e deve ditar o ritmo do mercado de hardware pelos próximos três anos. Quem planeja investir em PC ou smartphone precisa considerar o novo cenário para não ser pego de surpresa pelo “efeito IA” nas lojas.
Com informações de Computerworld