Você já deve ter ouvido que “todo mundo” está correndo para adotar inteligência artificial, seja para gerar código, acelerar atendimento ao cliente ou automatizar rotinas de TI. Mas a realidade é bem menos glamourosa. Um levantamento global conduzido pela JumpCloud — plataforma de gerenciamento e identidade em nuvem — revela que a maioria das organizações superestima (e muito) seu grau de maturidade em IA, abrindo brechas perigosas para vazamentos de dados e golpes sofisticados de phishing.
O que a pesquisa descobriu
Foram ouvidos mais de 1.000 líderes de TI em empresas de médio e grande porte. Os principais achados chamam atenção:
- 40% dos entrevistados se consideram “maduros” em IA, mas apenas 22% atendem a critérios objetivos de prontidão.
- 90% já percebem ganhos de produtividade com ferramentas de IA, porém 74% temem riscos de segurança, especialmente acesso não autorizado a dados e campanhas de phishing geradas por IA.
- 61% admitem que funcionários usam soluções de IA não autorizadas, sem qualquer visibilidade do time de segurança.
- 85% concordam que uma estratégia sólida de Identity & Access Management (IAM) é crítica para escalar IA de forma segura.
Por que isso importa para você?
A IA já é capaz de escrever código em Xcode, criar imagens realistas e até elaborar e-mails de engenharia social quase impossíveis de diferenciar de mensagens legítimas. Se as credenciais do seu GitHub, do painel da AWS ou do Microsoft 365 caírem em mãos erradas, o prejuízo chega antes mesmo de você terminar de configurar o novo mouse gamer na mesa.
Para quem trabalha com games, edição de vídeo ou desenvolvimento de apps — e vive trocando de hardware como placas de vídeo ou processadores — a situação é ainda mais sensível: grande parte dos projetos trafega por repositórios privados e serviços de nuvem que podem ser alvos fáceis caso identidades não estejam blindadas.
Identidade: o novo perímetro de segurança
Com o modelo de trabalho híbrido se tornando padrão, endpoints multiplicaram: são notebooks corporativos, PCs domésticos, tablets e até teclados conectados via Bluetooth a diferentes dispositivos. Cada peça do setup vira um vetor potencial de ataque. A JumpCloud defende que o caminho é unificar a camada de identidade, aplicando políticas de acesso zero trust tanto para humanos quanto para bots e serviços automatizados.
Investimento para turbinar o ecossistema
Para acelerar essa visão, a empresa lançou um fundo de investimento focado em IA, segurança e produtividade de TI. Um dos primeiros aportes foi na Tofu, solução que usa IA para confirmar identidade de candidatos durante processos de contratação — etapa em que golpistas têm se infiltrado para roubar dados ou plantar malwares.
O abismo entre percepção e realidade
Não é a primeira vez que negócios se sentem “prontos” para uma onda tecnológica e descobrem, tardiamente, que estavam no raso. Aconteceu com a mobilidade corporativa após a chegada do iPhone e com a migração em massa para a nuvem. A diferença agora é o ritmo exponencial: modelos como GPT-5.3 Codex e Claude Opus 4.6 já demonstram autonomia para gerar, testar e iterar código sozinhos.
Imagem: Jny Evans
Dario Amodei, CEO da Anthropic, crava que IAs “substancialmente mais inteligentes que quase todos os humanos” podem surgir ainda este ano — e que, em poucos anos, esses sistemas serão capazes de criar suas próprias sucessoras. Enquanto isso, a chefia de pesquisa de segurança da companhia acaba de pedir demissão alertando para riscos existenciais.
Checklist rápido para líderes de TI
Se a sua organização pretende colher benefícios da IA sem virar manchete de vazamento de dados, considere:
- Avaliar maturidade real: use métricas objetivas, não apenas percepção dos gestores.
- Mapear o uso não autorizado: ferramentas “shadow AI” podem estar processando dados sensíveis sem a mínima criptografia.
- Fortalecer IAM: MFA, autenticação sem senha e políticas de mínimo privilégio devem ser a regra.
- Treinar equipes: desenvolvedores precisam entender como usar ChatGPT, Claude ou Copilot sem inserir códigos proprietários ou chaves de API.
- Criar governança contínua: IA evolui a cada semana. Seus controles de segurança também precisam acompanhar esse ritmo.
E o que vem depois?
Especialistas concordam: quem experimentar hoje — com responsabilidade e mecanismos de proteção robustos — estará em melhor posição para competir amanhã. O oposto significa ficar preso entre processos manuais e concorrentes turbinados por algoritmos, enquanto apaga incêndios causados por falhas de segurança.
Quer dizer que todas as empresas estão perdidas? Não. Mas, segundo a própria pesquisa, “você provavelmente ainda não está pronto”. A boa notícia é que nunca foi tão fácil começar: existem plataformas de IAM em nuvem, kits de segurança alimentados por IA e cursos gratuitos que ensinam boas práticas. O passo mais difícil continua sendo admitir que há um problema.
Com informações de Computerworld