Quem enxerga um iMac Bondi Blue apenas como “aquele computador transparente dos anos 90” talvez não imagine o trabalho — e o investimento — exigidos para mantê-lo funcionando em 2024. Do outro lado da costa leste dos Estados Unidos, o colecionador conhecido como aphelion270 transformou um cômodo inteiro da casa em um estúdio climatizado e catalogado para preservar 33 Macs lançados entre 1998 e 2005, todos com caixas, manuais e acessórios originais.
Por que esses Macs viraram peça de museu?
A janela 1998-2005 marca a transição da Apple dos processadores PowerPC G3/G4 para o G5 e antecipa a migração posterior para a arquitetura Intel. Foi também a fase “colorida”, quando Steve Jobs quis que computadores fossem objetos de decoração e os tingiu de azul translúcido, uva, tangerina e grafite. São máquinas que mudaram a percepção de design na indústria e, hoje, aparecem em leilões pelo valor de um Mac mini M2 novinho.
Além do carisma, esses modelos trazem componentes difíceis de substituir. Telas CRT de 15″, plásticos de policarbonato que amarelavam com luz UV, baterias PRAM vazando eletrólito… Tudo isso coloca a manutenção em outro patamar quando comparada a notebooks atuais que, muitas vezes, só precisam de um SSD NVMe e pronto.
Racks de 24″ — o improvável santo graal
Em 2023, a coleção ganhou um quarto rack industrial de 24 polegadas de profundidade. Parece detalhe, mas a maioria dos móveis de TI oferece 12-18″, insuficiente para comportar torres parrudas como o Power Mac G5 ou monitores Cinema Display de até 30″. O resultado? A sala passou a receber cada máquina sem que caixas raras ficassem amassadas ou “penduradas” para fora da prateleira.
Para quem pensa em montar algo semelhante, vale notar que racks profundos custam quase o preço de um gabinete “gamer” topo de linha, mas evitam empenamento no papelão original — uma dor de cabeça que pode desvalorizar o equipamento em leilões.
SSD no lugar de HD mecânico: longevidade acima de purismo
Todas as 33 unidades tiveram os discos rígidos trocados por SSDs de 2,5″. Puristas podem torcer o nariz, mas o ganho de confiabilidade é dramático: um HD de 20-27 anos vive à beira de setores defeituosos, enquanto um SSD moderno consome menos energia, gera menos calor e reduz ruído — vantagens que falam alto para rodar Mac OS 9 ou OS X Tiger sem surpresas.
O colecionador também removeu baterias PRAM para evitar vazamentos corrosivos, reaplicou pasta térmica em todos os processadores e, nos iMacs G3/G4, afrouxou meio giro nos parafusos Torx dos painéis de acrílico. Tudo para que o plástico não rache com a tensão acumulada pelo ressecamento natural.
TAM: o “iMac Pro” de 1997 que custava um carro zero
A joia da coroa atende pela sigla TAM (Twentieth Anniversary Macintosh). Lançada a US$ 7.499 em 1997 (algo em torno de US$ 14.750 corrigidos para 2025), a máquina tinha tela LCD de 12,1″, áudio Bose integrado, rádio FM/TV e trackpad interno muito antes dos iBooks popularizarem a ideia. Apenas 11 mil unidades saíram da linha de produção, e muitas foram liquidadas um ano depois por menos de um terço do preço original.
No começo de 2025, um TAM lacrado trocou de mãos por US$ 4.230 em leilão, enquanto anúncios no eBay já pedem até US$ 15.000 por kits completos. O exemplar de aphelion270 foi comprado por “uma fração” desses valores, direto do primeiro dono — um achado que qualquer curador de museu de tecnologia invejaria.
Imagem: William R
Mercado de raridades Apple: bolha ou oportunidade?
A comunidade de colecionadores vive um paradoxo: anúncios especulativos convivem com vendas reais, criando referências de preço pouco conectadas aos fundamentos. PowerBooks G4 de 2003 listados por US$ 2 mil rivalizam com MacBooks Air M3 selados, evidenciando uma bolha alimentada por nostalgia e status social.
Para quem acompanha de fora, a lição é clara: modelos com produção limitada, estado NOS (New Old Stock) e caixas impecáveis tendem a se valorizar, sobretudo quando contam uma história de design ou engenharia que a Apple não repetirá — caso dos Power Macs de acrílico grafite ou do lendário G4 Cube sem ventoinhas.
Manutenção preventiva e clima controlado: rotina de museu
O estúdio opera sob um protocolo quase científico. Temperatura estável, umidade baixa, nada de cigarro e zero pets para não arriscar corrosão por pelos ou urina. Uma vez por ano, cada Mac é ligado para “girar os capacitores”, testar plásticos e atualizar a pasta térmica. Fora de exibição, tudo volta às caixas — o que dobra a necessidade de espaço, mas mantém o papelão rígido e sem dobras.
Para garantir conectividade, AirPort ou AirPort Extreme estão instalados nos modelos compatíveis, permitindo acesso a Wi-Fi moderno sem adaptadores USB pendurados. Detalhes como esse reforçam que a coleção não é apenas decorativa; todas as máquinas continuam plenamente funcionais, prontas para rodar clássicos como Marathon ou Photoshop 7 em hardware original.
No fim das contas, o estúdio de aphelion270 prova que colecionar tecnologia vai muito além de empilhar “velharias” em prateleiras. Exige climatização, racks fora de catálogo, recapacitação eletrônica e, principalmente, paixão para manter viva uma era em que a Apple misturava ousadia estética com arquitetura PowerPC. Se você tem um G3 parado no armário, talvez seja hora de dar uma nova vida — ou, quem sabe, descobrir que está sentado sobre um pequeno tesouro.
Com informações de Hardware.com.br