A Inteligência Artificial vem ganhando manchetes pelos avanços em chatbots e recursos de câmera, mas a conta dessa festa tecnológica já está batendo na porta do consumidor comum. Relatórios de consultorias como Counterpoint Research, TrendForce e IDC apontam que o custo de produção dos smartphones deve subir de 8% a 10% em 2025, empurrando os preços finais para cima em 2026. O vilão? A explosiva demanda por chips de memória — DRAM, NAND e HBM — que agora abastecem data centers dedicados a IA generativa.
Memória 170% mais cara: o efeito dominó no celular que cabe no seu bolso
De acordo com a TrendForce, fabricantes de DRAM e NAND registraram aumentos de até 170% nos preços dos módulos ao longo de 2025. Para 2026, a projeção é de mais 20% apenas no primeiro trimestre. Esse salto recorde estrangula principalmente os smartphones Android de entrada, segmento onde as margens de lucro já são apertadas. Em números globais, o preço médio de venda (ASP) dos celulares deve sair de US$ 457 em 2025 para cerca de US$ 465 em 2026. Pode parecer pouco, mas em grandes volumes significa bilhões de dólares extras pagos pelos usuários.
Por que a IA “rouba” memória dos smartphones?
Gigantes como Microsoft, Google, Amazon, Meta e OpenAI reservaram, com contratos bilionários, boa parte da capacidade de produção das foundries (TSMC, Samsung Foundry, SK Hynix). Esses acordos priorizam silício de alto desempenho para servidores de IA, onde as margens são maiores. Para suprir HBM — memória de largura de banda altíssima usada em GPUs como a Nvidia H100 — fábricas precisam redirecionar linhas que antes produziam DRAM convencional. Resultado: oferta menor para smartphones e PCs, preços maiores para todo mundo.
Menos inovação, mais preço: o paradoxo de 2026
A pressão nos custos deve congelar as fichas técnicas dos aparelhos. Rumores já indicam que Galaxy S26 e Pixel 10 podem repetir quantidades de RAM e armazenamento de 2025, trocando saltos generacionais por “refinamentos”. Ou seja, o consumidor paga mais para levar para casa um hardware praticamente igual — a diferença fica restrita a promessas de IA embarcada, como edições de foto automáticas ou assistentes de voz turbinados.
Quem sofre mais: os Androids de entrada
Nabila Popal, diretora de pesquisa da IDC, alerta: “Será praticamente impossível para os fabricantes não repassarem o aumento”. Nos modelos premium, as marcas costumam absorver parte do custo extra para manter status e user base fiel. Já em celulares abaixo dos R$ 2.000 (na conversão direta), qualquer centavo adicionado pode inviabilizar o lucro. O resultado tende a ser aparelhos “básicos” custando preço de intermediário.
Existe solução no horizonte?
Novas fábricas da TSMC nos EUA e no Japão prometem aliviar o gargalo, mas só devem operar a plena carga depois de 2027. Até lá, prepare-se para uma fase de ajuste: menos saltos de hardware, maior foco em software e otimizações de IA — e valores até 10% mais salgados na etiqueta.
Imagem: William R
Portanto, se o seu smartphone atual ainda dá conta do recado, talvez valha esticar sua vida útil com acessórios — como carregadores rápidos certificados ou boas capas anti-impacto — e esperar o mercado se estabilizar. Se você precisa trocar em 2026, planeje um orçamento extra e priorize modelos que entreguem updates de software prolongados, garantindo que o investimento faça sentido no longo prazo.
No fim das contas, a maré de IA que eleva a produtividade dos data centers também levanta os preços de tudo que depende dos mesmos chips — inclusive o smartphone que está (ou estará) no seu bolso.
Com informações de Hardware.com.br