Esqueça monitores, TVs 4K ou headsets de realidade virtual. O clássico Doom, de 1993, agora também roda – literalmente – numa pilha de recibos de supermercado. O responsável pela façanha é o criador de conteúdo Jon Bringus, do canal Bringus Studios, que transformou uma impressora térmica corporativa da Epson em uma espécie de console analógico, imprimindo quadro a quadro do jogo em tempo (quase) real.
O “PC” que dormia dentro da impressora
A estrela do projeto é a Epson M287D, um modelo de balcão pensado para emitir notas e comandas em restaurantes. A diferença é que, na base do chassi, a máquina traz um computador completo:
- Processador Intel Atom N2800 (2 c/4 t, 1,86 GHz)
- 4 GB DDR3 em slot único
- HDD Western Digital de 500 GB
- Windows 7 Embedded/Professional 32 bits
Na prática, trata-se de um mini-PC de 2012 acoplado ao mecanismo de impressão. Para alimentar tudo, Bringus precisou criar um sistema híbrido de fontes de 24 V, separando a energia da controladora de impressão da placa-mãe.
Drivers antigos, o verdadeiro chefão
Quem já tentou reviver hardware legado sabe: a batalha não é contra o clock baixo, mas contra software extinto. O Atom N2800 pertence à família Cedarview, cujo IGP Intel GMA 3600/PowerVR só recebe aceleração 3D oficial no Windows 7 32 bits. Linux? Somente usando ISOs modificadas, sem OpenGL decente. Windows 10? Driver inexistente.
Depois de testar Lubuntu, Debian, Fedora e até uma BIOS customizada em 64 bits (via dump e gravador externo), Bringus concluiu que o único caminho viável era voltar ao velho Windows 7, instalar o driver legado e aceitar as limitações.
Da tela para o rolo de papel
Com o sistema resolvido, veio a parte mais criativa: desenvolver um software de captura que pegasse a saída de vídeo, processasse em preto e branco (dithering) e enviasse cada quadro via spool para a impressora térmica:
- Configuração de FPS de impressão (cada quadro exige aquecimento do cabeçote)
- Ajuste de brilho e contraste, essencial para não fritar o componente térmico
- Seleção de algoritmos de dither para preservar detalhes em apenas duas cores
O resultado? Um “filme” contínuo de Doom impresso, com delay de ~4 s entre o comando no teclado e a imagem no papel. Nos trechos mais escuros, o cabeçote superaquece, a impressora “grita” num apito agudo e o backlog de quadros se acumula – uma aula prática de gerenciamento térmico.
Lag, bobinas e uma estética inesperada
Jogar, de fato, é impossível: quando o jogador vê o que fez, já está morto há vários frames. Mas a pilha de bobinas conta outra história. Inimigos, portas e HUD viram um storyboard físico que lembra as fotos do antigo Game Boy Printer, só que em rolos de 57 mm de largura.
Imagem: Internet
Bringus também imprimiu cenas de Half-Life 2 e Portal 2, criando faixas dignas de quadros de parede, tamanha a combinação de pixel art + textura térmica. A experiência migra do gameplay para algo mais próximo de instalação artística – e, convenhamos, poucos hardwares de escritório geram tanta conversa em um setup de streaming.
O que isso significa para você?
Para além da brincadeira “Will it Run Doom?”, o experimento destaca dois pontos relevantes para quem monta PCs hoje:
- Suporte de driver é vital. Não adianta ter hardware funcionando se o software não conversa com ele. GPUs modernas (como as RTX ou Radeon RX) recebem updates mensais, algo impensável para a velha GMA 3600.
- Hardware antigo ainda pode surpreender. Um Atom de 2012 virou atração principal num canal de milhões de visualizações. Se você tem um PC parado, talvez um mini-PC ou até uma impressora térmica USB na gaveta, vale explorar projetos de retro-gaming, servidores de emulação ou automação doméstica. Muitas peças à venda hoje na Amazon – de Raspberry Pi 5 a mini-PCs N100 – fazem milagres consumindo poucos watts.
Mais um item na lista de “Doom roda em…”
De calculadoras gráficas a geladeiras inteligentes, Doom já provou ser onipresente. A aventura de Bringus reafirma a cultura hacker que envolve o jogo e lembra que limitações podem ser o combustível da criatividade. A Epson M287D jamais será um console viável, mas virou peça de museu digital – impressa em preto e branco, cheia de cheiro de papel quente e com muita história para contar.
No fim, fica a pergunta: se uma impressora de recibo consegue rodar Doom, o que mais está escondido no hardware esquecido aí na sua casa?
Com informações de Adrenaline