O cometa 3I/ATLAS — apenas o terceiro objeto interestelar já detectado atravessando o Sistema Solar — voltou a ser visto depois de mergulhar no brilho ofuscante do Sol. A imagem mais nítida até agora foi registrada em 31 de outubro, quando as lentes de 4,3 m do Discovery Channel Telescope, instalado a mais de 2.300 m de altitude na cadeia montanhosa de Happy Jack (Arizona, EUA), capturaram o que astrônomos classificam como o primeiro retrato óptico pós-periélio do visitante cósmico.
Por que todo esse alvoroço em torno do 3I/ATLAS?
Desde sua descoberta em julho de 2025, o 3I/ATLAS já entrou para o mesmo hall da fama de 1I/‘Oumuamua (2017) e 2I/Borisov (2019). Ele atravessa o Sistema Solar a aproximadamente 210 mil km/h em trajetória praticamente retilínea, o que confirma sua origem extrassolar e indica que não ficará preso à gravidade do Sol.
No periélio — ponto mais próximo da nossa estrela — alcançado em 29 de outubro, o cometa ficou a 210 milhões km do Sol e totalmente invisível para observadores na Terra. Mesmo assim, sondas solares vinham monitorando sua evolução e detectaram um aumento inesperado de brilho, acompanhado por uma tonalidade azulada. O fenômeno sugere sublimação de gelo e liberação de gases, pistas valiosas sobre a composição do objeto, que pode ter até 3 bilhões de anos a mais do que o nosso Sistema Solar.
A captura da imagem: quando timing e hardware fazem toda a diferença
O autor do clique, o astrônomo Qicheng Zhang, preparou a sessão fotográfica ao usar primeiro um telescópio de apenas 152 mm para testar o céu, ajustar foco e tempo de exposição, antes de partir para a “câmera principal” de 4,3 m. O cometa estava a meros 16 graus do Sol e poucos graus acima do horizonte — uma condição complicada que exige:
- Óptica grande o suficiente para coletar luz rápida;
- Montagem motorizada, capaz de compensar o movimento aparente do céu em longas exposições;
- Filtros ou câmeras sensíveis em múltiplos comprimentos de onda para realçar a emissão gasosa.
Se você gosta de astrofotografia, essa combinação lembra muito setups avançados à venda no varejo: telescópios newtonianos de 150 mm a 200 mm com montagem equatorial GoTo, sensores CMOS dedicados e filtros narrowband — configurações que já se encontram em kits prontos na Amazon e permitem capturar detalhes bem além do que o olho nu enxerga.
Dá para vê-lo do Brasil?
A resposta curta: sim, mas será desafiador. O 3I/ATLAS está primeiro melhor posicionado para observadores do Hemisfério Norte. Entre o final de novembro e o início de dezembro, ele ganhará altura e atingirá cerca de 25 a 30 graus de separação angular do Sol, favorecendo telescópios apontados para o horizonte leste, pouco antes do amanhecer.
No Hemisfério Sul, inclusive no Brasil, o espetáculo deve ficar mais acessível na segunda quinzena de dezembro, quando o cometa ganha declinação ligeiramente negativa. Você vai precisar, no mínimo, de:
- Céu limpo, longe da poluição luminosa urbana;
- Binóculos astronômicos de 70 mm ou um telescópio de 80 mm a 130 mm com focal rápido (f/5 a f/7);
- App de cartas celestes (há versões gratuitas para smartphone) para localizar a posição exata.
Equipamento ideal para quem quer “caçar” cometas
Mesmo com magnitudes ainda modestas, o 3I/ATLAS é um excelente pretexto para atualizar a sua estação de observação. Confira o que faz diferença na prática:
- Telescópio refletor de 150 mm a 200 mm f/5 — espelho largo coleta mais luz, essencial para objetos difusos.
- Montagem equatorial motorizada com GoTo — segue o cometa automaticamente e facilita longas exposições para fotos.
- Câmera dedicada (CMOS ou DSLR modificada) — sensores de alta sensibilidade capturam a cauda gasosa em cores vibrantes.
- Filtros LRGB e narrowband — realce da emissão azulada (C₂ e CO⁺) que o 3I/ATLAS vem exibindo.
Esses acessórios já aparecem nos rankings de mais vendidos da Amazon e são compatíveis com softwares populares de empilhamento de imagens, como o gratuito DeepSkyStacker.
Imagem: Qicheng Zhang
Próximos passos da pesquisa científica
A comunidade astronômica está de olho no ritmo de desaceleração do brilho do 3I/ATLAS para calcular sua taxa de perda de massa. Modelos iniciais sugerem que a química exótica detectada pode ajudar a rastrear seu sistema de origem. Quanto mais imagens (profissionais ou amadoras) forem coletadas nas próximas semanas, mais refinados ficarão os dados orbitais e espectroscópicos.
Em janeiro de 2026, o cometa deverá ultrapassar a órbita de Marte e seguir sua viagem para o espaço interestelar, levando consigo registros únicos que podem desvendar não apenas seu passado, mas também as condições de formação de outros sistemas estelares.
Sempre há espaço para “teorias alienígenas”, mas, até agora, não há qualquer evidência de que o 3I/ATLAS seja tecnologia extraterrestre. O consenso científico permanece: trata-se de um cometa natural, ainda que incrivelmente antigo e valioso para a pesquisa.
No ritmo em que o 3I/ATLAS se afasta, cada noite clara pode ser a penúltima oportunidade de vê-lo. Se você ainda não tem um equipamento capaz de capturá-lo, vale acompanhar as atualizações dos catálogos especializados — muitos modelos de telescópios e câmeras voltados para iniciantes e intermediários já trazem exemplos de “caça a cometas” nos materiais de divulgação.
Em um paralelo curioso, a velocidade hipersônica deste forasteiro faz lembrar a evolução frenética do nosso hardware de consumo. Placas de vídeo, processadores e periféricos gamer que parecem topo de linha hoje ficarão obsoletos em um piscar de olhos — assim como o 3I/ATLAS, que já está a caminho de deixar o nosso céu para sempre. Aproveite a rareza do momento, seja para observar o cosmos ou atualizar o seu set-up.
Com informações de Olhar Digital