Imagine sair para uma auditoria de segurança, encontrar redes Wi-Fi vulneráveis e coletar dados sem ficar caçando tomada. Foi exatamente essa a proposta do Field Terminal V2, um “cyberdeck” criado pelo usuário AdInformal4622 e exibido no Reddit. O projeto une um Raspberry Pi 3B+ tunado, baterias de alta capacidade e um chassi impresso em 3D, resultando em até 12 horas de uso contínuo com Kali Linux — distribuição preferida pelos profissionais de pentest.
O que é, afinal, um cyberdeck?
Popularizados por filmes de ficção científica e pela estética “retro-futurista”, os cyberdecks são computadores portáteis customizados que priorizam robustez e estilo. Na prática, eles funcionam como notebooks ultraespecíficos: focam em tarefas de campo e dispensam periféricos tradicionais. O segredo está no combo Raspberry Pi + impressão 3D + acessórios modulares — tudo facilmente encontrado em marketplaces como a Amazon Brasil.
Especificações que cabem no bolso (mas não devem nada a um PC)
Ao contrário de builds feitos só para brilhar no Instagram, o Field Terminal V2 foi pensado para uso real em segurança ofensiva. Confira os principais componentes:
- Placa-mãe: Raspberry Pi 3B+ rodando Kali Linux 2025 (já otimizado para o futuro Raspberry Pi 5).
- Tela: Waveshare 4,3” (800 × 480) via DSI, ocupando menos espaço que painéis HDMI.
- Energia: pack 1S4P com quatro células Samsung 35E (14 000 mAh), gerenciado por módulo IP5219 customizado com CI de proteção XB4908.
- Armazenamento: SSD conectado diretamente aos pads do Pi; portas USB foram dessoldadas para poupar milímetros preciosos.
- Conectividade: adaptador Wi-Fi RTL8812AU em modo monitor + antena SMA 5 dBi, combo capaz de capturar pacotes a longas distâncias.
- Periféricos: teclado Rii Mini X1 Bluetooth — pesa menos de 100 g e cabe no bolso do casaco.
- Resfriamento: cooler 30 mm controlado por termistor; a CPU se mantém a 74 °C sob estresse total.
No total, o terminal marca apenas 720 g na balança — peso próximo ao de tablets robustos, mas com o triplo de autonomia que muitos ultrabooks entregam em carga intensa de CPU/Wi-Fi.
O quebra-cabeça da energia: vencendo o “inrush current”
O maior desafio foi o inrush current, aquela corrente de pico que o Raspberry Pi exige ao ligar e que dispara a proteção contra curto do módulo IP5310. A solução exigiu transplante de um CI XB4908, mais tolerante a picos de 5 A, para a placa IP5219 — um trabalho de solda de precisão auxiliado por osciloscópio. Esse ajuste garante que o sistema inicialize sem resets inesperados, problema comum em projetos DIY menos elaborados.
Pentest na prática: até onde vai um Raspberry Pi 3B+?
Combinado ao Kali Linux, o Pi 3B+ lida bem com tarefas de footprinting, varredura de portas e captura de handshake para ataques offline. Para força bruta pesada ou fuzzing de aplicativos, ainda vale delegar o processamento a um server ou ao futuro Raspberry Pi 5, que já promete até 3× mais desempenho em CPU e GPU. Mesmo assim, para operações furtivas em campo, difícil achar algo tão portátil e silencioso.
Autonomia: melhor que notebook gamer e sem throttling
Em testes práticos, a bateria de 14 000 mAh sustentou 12 h de sniffing contínuo em 2,4 GHz, com uso moderado de display. Para efeito de comparação, um notebook gamer de 15” dura 3–4 h no mesmo cenário e pesa mais de 2 kg. Essa diferença de mobilidade faz toda a diferença para analistas de segurança que precisam se deslocar entre andares ou permanecer discretos.
Imagem: William R
Peças fáceis de encontrar (e evoluir)
Todos os componentes listados aparecem em estoque recorrente na Amazon, do Raspberry Pi às células Samsung 35E e ao Wi-Fi RTL8812AU. Isso permite upgrades futuros: trocar a tela por um painel AMOLED de 5”, subir para o Raspberry Pi 5 ou até acoplar uma GPU externa via PCIe, tendência já vista em hacks recentes.
Vale a pena montar o seu?
Se você atua com red teaming, CTFs ou simplesmente curte hardware open source, um cyberdeck desse porte entrega mobilidade que nem tablets nem ultrabooks conseguem. O investimento gira em torno de R$ 1 200 a R$ 1 600, valor similar a um roteador mesh topo de linha ou a um SSD NVMe de 2 TB. Como o design é open source, basta baixar os arquivos no GitHub e encomendar a impressão 3D em PLA ou PETG.
No fim das contas, o Field Terminal V2 mostra que, com criatividade e peças acessíveis, dá para ter um “hacker de bolso” profissional, pronto para qualquer auditoria — e ainda economizar espaço na mochila.
Com informações de Hardware.com.br