Se você acha que a guerra por placas de vídeo de ponta, como as disputadas NVIDIA GeForce RTX 40 ou as AMD Radeon RX 7000, vai dominar o mercado de hardware por décadas, talvez precise recalibrar o relógio. Em entrevista ao Financial Times, Pat Gelsinger — ex-CEO da Intel e hoje sócio do fundo Playground Global — disparou que a computação quântica pode amadurecer em apenas dois anos, tempo suficiente para estourar a “bolha” de inteligência artificial (IA) que hoje gira em torno das GPUs.
O recado de Gelsinger: três pilares para o futuro do silício
Para Gelsinger, processadores clássicos, aceleradores de IA e computadores quânticos formarão uma “trindade” que definirá a próxima década. O ponto fora da curva é o prazo: enquanto nomes como Jensen Huang, da NVIDIA, estimam duas décadas para a computação quântica atingir escala industrial, o ex-Intel fala em 24 meses. Se estiver certo, GPUs topo de linha — as mesmas que alimentam data centers, PCs gamer e workstations — teriam seus dias de protagonismo contados antes mesmo do fim desta década.
Por que isso ameaça as GPUs que conhecemos hoje?
A IA atual depende de placas como a NVIDIA H100 ou a AMD Instinct MI300X, itens tão cobiçados que chegam a custar dezenas de milhares de dólares cada. Esses chips trabalham com milhões de núcleos CUDA ou Stream e centenas de gigabytes de memória HBM. Mas, na visão de Gelsinger, qubits escaláveis poderiam executar certos cálculos em segundos, enquanto as GPUs levariam dias — ou simplesmente não conseguiriam.
Para o usuário final, isso implica:
- Menos demanda por upgrades constantes em GPUs de IA, reduzindo o ciclo frenético de novas placas a cada ano;
- Mudança de foco dos fabricantes, que podem realocar investimento de arquiteturas gráficas para soluções híbridas com aceleração quântica ou óptica;
- Possível queda de preço no médio prazo para GPUs gamer, já que parte da produção hoje direcionada a data centers poderia voltar ao varejo.
Computação quântica em 60 segundos: o básico sem jargão
A lógica quântica usa qubits, que podem representar 0 e 1 simultaneamente (superposição) e compartilhar estado (emaranhamento). Isso permite explorar múltiplas soluções em paralelo, algo impraticável em chips convencionais. Em teoria, tarefas como machine learning, criptografia e simulações químicas ganhariam aceleração exponencial.
Quem está na pole position quântica?
Além da própria Intel — que pesquisa transistores com tecnologia spin-qubit —, empresas como IBM, Google, Microsoft e a divisão AWS Braket, da Amazon, já oferecem acesso a máquinas quânticas em nuvem. Startups como D-Wave, Rigetti e a brasileira Q-Stant reforçam a corrida.
Impacto prático: gamers, criadores e empresas devem se preocupar agora?
No curto prazo, não. Jogos AAA, edição de vídeo 8K ou stream em 4K continuam a exigir o bom e velho poder de rasterização e ray tracing das GPUs atuais. Mesmo que os qubits avancem rápido, o ecossistema de software precisa acompanhar. Engines de jogo, APIs como DirectX e OpenGL e ferramentas de IA generativa ainda são otimizadas para placas gráficas.
Imagem: Internet
Contudo, vale ficar de olho se você:
- Investe pesado em IA para pesquisa ou startups — contratos de locação de GPU podem perder valor se surgirem ofertas quânticas mais baratas;
- Pensa em montar um PC workstation para ciência de dados a longo prazo — avaliar locação de serviços na nuvem pode reduzir riscos;
- Quer trocar de placa de vídeo para jogar em 4K/144 Hz — modelos atuais, como RTX 4070 Super ou RX 7800 XT, ainda entregam ótima relação custo-benefício enquanto a tempestade quântica não chega.
E a Intel da era Gelsinger? Bastidores de uma reestruturação conturbada
O executivo revelou que, ao reassumir a Intel em 2021, encontrou “desorganização profunda” e projetos-chave atrasados. O caso emblemático foi o processo de fabricação Intel 18A, pivotado para rivalizar com a TSMC. Ele prometeu entrega em cinco anos, mas saiu antes do prazo — e o sucessor, Lip-Bu Tan, encerrou o projeto no mesmo cronograma, sem deixar claro se houve sucesso completo.
O que fazer enquanto o futuro não chega?
A recomendação de mercado é equilibrar investimentos: aproveitar as ofertas de GPUs atuais (cada vez mais competitivas em preço no varejo online) para demandas imediatas, e manter o radar ligado em protótipos quânticos. Caso o prognóstico de Gelsinger se confirme, veremos um deslocamento semelhante ao que aconteceu com CPUs x86 e chips Arm na última década — só que em velocidade turbo.
No fim das contas, a fala do ex-CEO da Intel reforça um sinal para todo entusiasta de hardware: a próxima quebra de paradigma pode chegar antes do seu próximo upgrade.
Com informações de Adrenaline