Se você cresceu no Brasil entre o fim dos anos 1980 e o início dos anos 2000, é bem provável que as suas primeiras memórias gamers envolvam um logo amarelo em forma de “T”. A Tectoy não só trouxe o Master System e o Mega Drive para as prateleiras nacionais, como também apostou em traduções de jogos, campanhas de marketing agressivas e até consoles próprios. Quase quatro décadas depois, a empresa ressurge com o portátil Zeenix em plena era dos handheld PCs. Mas como essa história começou — e por que ainda desperta tanta nostalgia (e curiosidade de compra) nos entusiastas?
Um argentino, uma aposta ousada e o nascimento da Tectoy
Em 1975, o engenheiro argentino Daniel Dazcal desembarcou no Brasil para comandar uma fábrica da Sharp. Anos depois, ele percebeu o vácuo de produtos eletrônicos voltados ao entretenimento infantil. A oportunidade se tornou real quando o empresário Léo Kryss entrou como sócio. No dia 18 de setembro de 1987 nascia a TecToy (com o segundo “T” maiúsculo), que logo atraiu talentos de peso, como Stefano Arnhold, futuro CEO no auge da companhia.
Zillion e Pense Bem: quando tecnologia virou brinquedo
Antes de falar em cartuchos e consoles, a Tectoy estourou em 1988 com a pistola Zillion, versão de laser tag inspirada no anime homônimo exibido pela Rede Globo. O sucesso pavimentou o caminho para a futura parceria com a Sega. No embalo, veio o Pense Bem, “computador de brinquedo” que mesclava educação e diversão — um pré-tablet para a geração analógica.
Master System: a contra-ofensiva brasileira à hegemonia Nintendo
Convencer a Sega a oficializar a distribuição no Brasil não foi tarefa simples; a empresa japonesa havia patinado nos EUA e via a Nintendo liderar o mercado global. Mesmo assim, em 4 de setembro de 1989 o Master System começou a ser fabricado em Manaus. O console de 8 bits rivalizava diretamente com o Nintendo Entertainment System (NES), mas trazia diferenciais que pegaram em cheio o público local:
- Gráficos ligeiramente superiores ao NES;
- Preço competitivo graças à produção nacional;
- Campanhas publicitárias em TV aberta e programas próprios, algo inédito para videogames por aqui.
O resultado? O faturamento da Tectoy saltou de US$ 8 milhões (1988) para US$ 66 milhões (1989). Metade desse valor vinha só do Master System — a ponto de faltar estoque nas lojas.
Mega Drive e Game Gear: a era 16-bit e a primeira “guerra dos portáteis”
Em 1990, a Tectoy trouxe o Mega Drive, console de 16 bits que bateu de frente com o Super Nintendo. Além do salto gráfico, o aparelho inaugurou acessórios icônicos como o 32X e o Modem Meganet, embrião do jogo online por aqui.
No ano seguinte, chegava o Sega Game Gear, primeiro portátil colorido a desembarcar oficialmente no país. Embora mais avançado que o Game Boy monocromático, seu consumo de pilhas e preço elevado mantiveram o portátil da Nintendo no topo. Ainda assim, o Game Gear virou objeto de desejo e hoje rende boas oportunidades para colecionadores.
Localização: quando Mônica enfrentou dragões e Sonic ganhou sotaque
Se hoje a dublagem em português é mandatória nos games AAA, muito se deve às primeiras apostas da Tectoy. Em 1993, Phantasy Star recebeu tradução completa, facilitando o acesso de quem mal arranhava o inglês. A empreitada se expandiu para adaptações visuais completas, como Mônica no Castelo do Dragão (versão nacional de Wonder Boy in Monster Land) e Chapolin Vs. Drácula. Estratégia certeira: vender mais cartuchos e fidelizar crianças que veem seus ídolos de TV dentro do videogame.
Tempestade à vista: Saturno caro, Dreamcast adiantado e a primeira crise
Com a chegada dos 32 bits, a má fase da Sega refletiu direto no Brasil. O Sega Saturno (1995) era caro e perdeu espaço para o PlayStation. Já o Dreamcast (1999) trouxe modem integrado, mas custava além do poder aquisitivo nacional. A Tectoy entrou em concordata, demitiu equipes e precisou diversificar: surgiu a fase dos DVD Players, aparelhos de karaokê e MP3 players.
Imagem: Internet
Zeebo: streaming de jogos antes do 4G — timing ou utopia?
Com a Sega fora do mercado de hardware (2001), a Tectoy buscou caminhos inéditos e, em 2009, lançou o Zeebo, console feito em parceria com a Qualcomm. Ele custava R$ 499 — praticamente metade de um PlayStation 2 — e eliminava a mídia física: os jogos eram baixados via 3G. Ótima ideia, execução limitada: catálogo enxuto, performance gráfica modesta e conexão lenta frearam a adoção. Encerrado em 2011, o Zeebo virou item de colecionador e case de inovação prematura.
Entre tablets infantis e parcerias B2B: a Tectoy low-profile
De 2012 a 2018, a marca focou em tablets temáticos (Disney, Galinha Pintadinha) e linhas de áudio. Também passou a fabricar produtos para terceiros, aproveitando a Zona Franca de Manaus e oferecendo pós-venda como serviço. Essa estrutura industrial, vale lembrar, é a mesma que hoje monta headsets gamer e microfones USB já populares na Amazon.
Zeenix: a volta à cena gamer na era dos handheld PCs
Em 2019, um grupo de investidores liderado pela Transire comprou uma Tectoy desvalorizada e prometeu reposicioná-la. O primeiro fruto surgiu em 2025: Zeenix Lite e Zeenix Pro, versões customizadas do portátil AYN Loki. Na prática, o Zeenix compete com Steam Deck, ROG Ally e Lenovo Legion Go, mas tem diferenciais:
- Processador AMD Ryzen 7 7840U (versão Pro) contra o Ryzen Z1 Extreme do ROG Ally;
- SSD de até 512 GB com slot M.2 para upgrade fácil;
- Preço inicial competitivo no Brasil (a partir de R$ 2.499 no Lite), já com garantia nacional e suporte oficial.
Para quem joga no PC e quer mobilidade sem abrir mão da biblioteca Steam, o Zeenix surge como alternativa interessante — sobretudo quando comparado ao custo de importar um Steam Deck, que chega a 70 % de taxas.
E agora, Tectoy?
Além do Zeenix, a empresa comercializa hoje mouses com sensor de up to 12.400 DPI, teclados mecânicos com switch Outemu Blue e headsets com som 7.1 virtual — acessórios que falam diretamente ao público que pesquisa “periféricos custo-benefício” no Google. Dessa vez, a estratégia parece combinar nostalgia e utility: produtos de entrada a intermediários com design gamer, distribuídos no varejo online e, claro, no ecossistema Amazon.
Se a aposta vai dar certo? A história mostra que a Tectoy nunca teve medo de arriscar. Para veteranos, a marca evoca tardes jogando Alex Kidd; para a nova geração, pode ser a porta de entrada em games de PC na palma da mão. No fim, a cartada é a mesma de 1989: entender o que o público brasileiro realmente quer — e entregar antes da concorrência estrangeira.
Com informações de TecMundo